Mitos comuns na amamentação

A amamentação é rodeada de crenças populares que muitas vezes carecem de qualquer lógica ou suporte científico, a seguir alguns desses mitos que tanto atrapalham a amamentação:

1-Passar bucha no seio para calejar o seio antes da amamentação”

Quando pensamos em nos preparar para a amamentação, o mito de passar bucha no seio para “calejar” é o campeão. Ele não só não ajuda como atrapalha. A esfoliação constante que a pele sofre com a ação abrasiva das buchas (vegetais ou sintéticas) pode deixar a pele do mamilo muito mais sensível e com microfissuras, uma porta aberta para micro-organismo oportunistas colonizar. A única preparação que é necessária para a amamentação é a própria gestação. Os hormônios da gestação propiciam o crescimento da glândula mamaria, a melanização da pele ajuda preparar o mamilo para a chegada do bebê. Nada mais, além de preparar a cabeça com informação adequada é suficiente. veja 7 Dicas para preparar se para a amamentação

2- “A dor é normal, no começo dói mas passa”

Amamentar é um comportamento natural, deve ser aprendido pela mãe e o bebê. É normal errar a pega, sentir um desconforto e ser necessário corrigir, várias vezes nas inúmeras tentativas . Aprendizagem é mediado por tentativas e erros. A dor pode ser entendida como um guia de qual caminho NÃO seguir, ela aparece quando o acople mãe- peito – bebê não está certo.

Se resignar à dor não deve ser normalizado. Uma experiência dolorida para a mãe se traduz em problemas na extração de leite pelo bebê, dificuldades com o ganho de peso, sono, etc. A orientação oportuna faz diferença. Invista em qualidade de vida para você e seu bebê. As consultoras de amamentação existem justamente para orientar. Veja mais sobre A amamentação do recém nascido

3-“Guardar o seio para ter mais leite”

A produção de leite materno é glandular, ou seja, o leite se produz enquanto é solicitado. A qualidade e a frequência das mamadas é o “sinal” que nosso corpo usa para regular a produção do leite materno (quantidade e composição). Assim, qualquer interferência nesse “sinal” pode passar a mensagem errada para nosso corpo e alterar a produção de leite materno. A produção de leite materno é regulada pelo nosso sistema hormonal e pelo próprio leite. O leite materno remanescente nos dutos tem uma proteína que atua inibindo a produção pela glândula mamaria.

Se esse fator inibitório da lactação não é retirado constantemente da mama, o corpo entende que não deve produzir leite materno em maior quantidade. Em outras palavras, segurar o peito cheio não aumenta a produção, tornar essa prática habitual, pode levar à diminuição da produção. Veja mais sobre como funciona a produção do leite materno

4- “Colocar o mamilo ao sol para cicatrizar as fissuras e calejar a pele”

Durante a gestação a pele do mamilo sofre um processo de melanização, aumentando a quantidade de melanina e por consequência deixando a pele do mamilo mais escura e grossa. Não é necessário colocar o seio ao sol para que isto aconteça. Após o nascimento essa melanização ajuda a fortalecer a pele do mamilo, justamente para os dias de adaptação à amamentação. Se houver fissura mamilar, a solução vai ser corrigir a pega e manter um meio úmido, onde as células podem migrar e regenerar o tecido. Contrário ao que a crença popular prega, o sol pode ressecar a pele e dificultar a cicatrização.

O único caso no qual a luz do sol é recomendada para tratamento, é quando existe infecção mamilar por fungos, candidíase mamária, já que nesse caso a radiação complementa o tratamento com medicação, ajudando controlar e diminuir a população da cândida enquanto a medicação faz efeito. E nesses casos o sol é recomendado não só para o seio, para as roupas que entram em contato com ele também. Veja mais sobre a candidíase mamária

5- “Amamentar emagrece”

Voltar ao mesmo corpo e antes da gestação rapidamente é o sonho de qualquer mãe, e após ouvir tantas vezes que amamentar emagrece, ficamos frustradas quando vemos que esse corpo demora para voltar 6, 9,12 meses (quando não mais). Amamentar exige um gasto energético maior da mulher, aproximadamente 700-1000 calorias a mais do que consumiria normalmente, porém, a privação de sono e os constantes reajustes na rotina alimentar (se é que há) , assim como os câmbios hormonais da fase do puerpério também devem ser considerados.

Durante o sono profundo se produz leptina, substância que ajuda ao cérebro reconhecer os estados de satisfação nutricional, com o ajuste às mudanças normais no padrão de sono da mulher (em resposta ao sono do bebê), o equilíbrio dessa substância pode ser prejudicado, o que nos leva sentir mais fome, querer comer mais do normal, talvez em horários pouco habituais. Por outro lado, o desafio de organizar a vida com um bebê em casa leva a que a rotina alimentar da mulher seja deixada deixada de lado, em outras palavras, a gente come quando dá e do que há. Essa alimentação desorganizada, na que esquecemos refeições ou mesmo nos vemos passando grandes períodos de jejum, leva nosso metabolismo entrar em adaptação à escassez, acumulando tudo o que puder quando recebe o alimento.

Se está tentando voltar ao corpo de antes da gestação enquanto amamenta, e está tendo dificuldades, procure ajuda de nutricionista materno infantil, organize sua rotina familiar e comece a colocar a alimentação adequada como prioridade. Veja também sobre  O sono das mães

6-“A alimentação da mãe influencia o seu leite materno”

A produção de leite não está diretamente relacionada ao estado nutricional da mulher. De forma similar ao que acontece na gestação, durante a amamentação o bebê vai retirar da mãe tudo o que ele precisa independente das reservas maternas. O leite não fica fraco, ele terá sempre a composição básica de nutrientes, adequada para o bebê.

Quando se tem um bebê com muita cólica, o primeiro é fazer um registro da alimentação da mãe, e ensinar a mãe observar o bebê, não se retiram alimentos de forma aleatória. O consumo em excesso de café (mais de 5 xícara por dia), chocolate (450 gr por dia) e álcool, se sabe que pode sim aumentar a incidência de cólicas no bebê . Vale lembrar que o choro do bebê e a cólica nem sempre estão relacionados com a alimentação da mãe.

Não existem evidências que suportem que a restrição de alimentos atua como prevenção do aparecimento de cólicas . No último consenso de alergia, a orientação de restrição alimentar na mãe para evitar alergia alimentar na criança , não existe mais, os estudos mostraram que não existe uma diferença significativa no risco de aparecimento de alergia -alimentar nas crianças . Veja mais sobre Influência da alimentação na amamentação

7- “A ordenha com bombinha mede a produção de leite materno”

A produção de leite materno acontece conforme o peito vai recebendo estímulo do bebê. Além da sucção, o bebê estimula a glândula mamária com movimentos peristálticos da língua, o contato físico e a conexão emocional com o bebê garantem a produção de ocitocina, que garante a ejeção contínua do leite .

Ao ordenhar com bombinha, a quantidade de leite obtido nessas ordenhas não vai ser comparável à quantidade de leite que o bebê consegue extrair durante a mamada. Por um lado, o seio apenas recebe o estímulo da sucção, faltando o estímulo que os movimentos peristálticos da língua exercem sobre a glândula. Por outro lado, muitas mulheres submetidas ao exame de produção de leite através da ordenha podem experimentar picos elevados de estresse, experimentando dificuldade na ejeção, uma vez que os receptores de ocitocina responsáveis pela abertura dos dutos, acabam sendo bloqueados pela presença elevada de cortisol.

Ordenha não pode ser tomada como medida da produção de leite, uma vez que os estímulos que o seio recebe durante a mamada e durante a ordenha são diferentes.

8-“Amamentando não engravida”

Mentiraaaaa! Engravida sim, se não se faz nada para prevenir. Amamentar não é método anticonceptivo. Por isso, converse com o seu ginecologista qual é o melhor método para prevenir uma gestação indesejada. Existem vários métodos compatíveis com a lactância.

Não existe regra sobre o tempo que demora para voltar o ciclo menstrual após o parto. Para algumas mulheres pode ser mais de um ano, para outras apenas algumas semanas. A fecundação pode acontecer no primeiro ciclo ovulatório, sem nem mesmo ter voltado a menstruar. Se não é seu desejo engravidar, então é bom planificar.

9-“Se engravidar amamentando deve desmamar o filho mais velho”

Não existem evidências que sugerem que a amamentação durante a amamentação traz riscos para o bebê amamentando ou o bebê que está se gestando. A ocitocina produzida durante as mamadas é similar em quantidade à liberado durante o sexo, e é insuficiente para provocar trabalho de parto prematuro. Devemos se lembra que o trabalho de parto acontece num ambiente hormonal onde vários hormônios interagem, a ocitocina é apenas um deles. Se a atividade física e a relação sexual estão liberadas durante sua gestação, não existe nenhuma razão para suspender a amamentação.

Em alguns casos pode ter diminuição considerável da produção de leite materno, mudanças no gosto para o bebê, desenvolver sensibilidade ou perturbação na amamentação. Orientação adequada e manejo dessas situações conforme vão aparecendo é essencial para garantir o bem estar da mãe, o bebê amamentado e a gestação. Veja mais Amamentando durante a gestação sobre Amamentando durante a gestação 

10-“Depois de dois meses não tem mais confusão de bicos”

Dar chupeta ou não é uma decisão de cada mãe, porém, não podemos mais fechar os olhos às evidências sobre o efeito negativo dos bicos artificiais sobre a amamentação, em qualquer idade, sabendo as possíveis consequências, a escolha se torna realmente consciente.

A confusão de bicos é uma loteria, não existe garantia nenhuma que seu bebê fará parte dos 30 % de afortunados que conseguem superar um ano mantendo o uso de bicos junto da amamentação, ou se será parte dos 70% de desafortunados que desmamaram precocemente por causa da confusão. Se você optou por dar chupeta e/ou mamadeira por qualquer razão, e deseja manter a amamentação, então fique de olho nos sintomas da confusão de bicos e tome uma atitude antes que seja tarde. Veja mais sobre confusão de bicos 

11-“Se o bebê morde o seio é hora de desmamar”

As mordidas ao seio são normais e podem acontecer em vários momentos da amamentação, elas não significam que o bebê não gosta mais do seio ou da mãe. Não significa que o bebê está pronto para um desmame. Podem ser apenas alertas para dar atenção às dificuldades que o bebê tem na hora de mamar, seja pelo fluxo muito forte, seja para acertar ou ajustar a pega (na saida de dentes) , seja com dificuldades de manter o alinhamento frente ao seio (quando está para adormecer, por exemplo) ou mesmo chamados de atenção para a mãe olhar para ele durante a mamada. Atitudes simples como mudar a postura, observar e corrigir a pega, dar atenção ao desconforto dos dentinhos, ou conversar com ele para que sinta sua atenção durante a mamada, podem ser suficientes.

Quando as mordidas no seio aparecem enquanto se faz uso simultâneo de bicos artificiais, podem ser sinais que o processo de confusão de bicos está avançando, um alerta a ser ouvido e regular, reduzindo ou mesmo suspendendo o uso, caso o objetivo seja manter a amamentação por mais tempo. Veja mais sobre como controlar as mordidas ao seio. 

12- “O bebê faz o seu peito de chupeta”

A sucção não nutritiva é uma necessidade fisiológica dos bebês, tanto quanto se alimentar. Essa sucção popularmente chamada de “chupetar” o seio, ajuda o bebê aliviar seus desconfortos, oferece analgesia, permite ao seu cérebro liberar endorfina, serotonina para ajudar na regulação do estresse, relaxar e assim lhe ajudar a adormecer.

Vamos combinar que o bebê não faz o peito de chupeta, é a chupeta que substitui grosseiramente o peito materno. Colocando em risco a amamentação ao introduzir a possibilidade da confusão de bicos. Veja mais sobre a associação da sucção com o sono

13- “Se acordar a noite é porque não tem leite suficiente”

O aleitamento noturno é necessário no mínimo até 1 ano. O metabolismo dos bebês é muito rápido, eles chegam triplicar o seu peso no primeiro ano de vida, além de desenvolver a base de seu sistema sensorial e motor. Muito trabalho, que requer muita energia, e de onde vem essa energia? Do leite materno!

Não é comum que os bebês tenham intervalos de jejum noturno maiores a 5-6h antes de 12 meses. Então numa noite de 10 horas de sono noturno podem solicitar 1 ou 2 vezes a mamada. Não tem a ver com a qualidade do leite, é o processo de amadurecimento neurofisiológico normal. Até mesmo bebês que tomam fórmula , geralmente sugerida com opção ao leite materno “fraco” ou insuficiente , tem a necessidade da mamada noturna.

Quando o aleitamento noturno está intenso, com muitas mamadas em intervalos muito curtos, é importante observar a frequência e efetividade das mamadas diurnas antes de suspeitar de pouco leite. veja mais sobre aleitamento noturno.

14- “Depois de fazer seis meses, quando começam comer, não precisa mais do leite materno”

Até os 8 meses (aproximadamente) o leite materno constitui mais de 70% dos nutrientes que o bebê precisa . Mesmo quando o bebê come bem, podemos perceber que os alimentos ingeridos passam ao cocô quase inalterados, se come mamão, vai sair mamão, se come arroz, adivinhe só? vai sair arroz, experimente com milho, feijão, e toda gama de alimentos que quiser. A mãe ou pai sabe o que o bebê comeu durante o dia, mesmo estando longe dele, apenas pelo cocô. Isto acontece porque o sistema digestivo ainda não consegue digerir e absorver todos os nutrientes dos alimentos, tão bem como digere o leite materno.

Em algum momento após os 8 meses percebemos a mudança no cocô, o bebê começa melhorar a digestão, aceitar melhor os alimentos e começa gastar muita mais energia do que antes, se arrastando (minhocando), engatinhando, se levantando , ficando horas acordado brincando. Mesmo assim, o leite materno continua tendo um papel central na alimentação. Não se esqueça, até o primeiro ano, os alimentos é que são complementares. Mesmo que o bebê aceite muita comida, sempre precisará mamar, já que os alimentos ainda não são digeridos completamente, e não suprem as necessidade nutricionais tal qual o leite materno. Na medida que o sistema digestivo vai sendo aprimorado, o leite materno gradativamente vai cedendo espaço nutricional para os alimentos (mesmo continuando uma alta demanda emocional do seio). veja mais sobre a alimentação complementar e amamentação

Precisando ajuda?

A consultoria Mães com Ciência pode ajudar com a amamentação, sono, planejar sua volta ao trabalho, desmame gentil, desfralde ou educação positiva saiba como funciona aqui ou  Agende uma consulta virtual aqui

*Texto original de Zioneth Garcia

Veja mais textos sobre a amamentação aqui

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