Amamentação

Como funciona a produção do leite materno

Produção de Leite Materno: entendendo como acontece e o que pode alterá-la

Que o leite materno é o alimento perfeito para seu bebê, já sabemos. Ele é um fluído vivo de composição complexa, contendo açúcares, proteínas e gorduras na composição certa para seu pequeno em cada idade e demanda. Contem agentes imunológicos ativos: imunoglobulinas específicas e micro-organismos que irão compor a microbiota digestiva do seu bebê.  

Mas e como acontece a produção de Leite materno? Nesse texto quero tentar explicar de forma clara. O ponto essencial é que o leite materno é de PRODUÇÃO GLANDULAR, ou seja, o leite materno humano é produzido enquanto é solicitado. Diferente das vacas, a mama humana não tem estruturas de armazenamento (cisternas) para o leite produzido. 

Para entender melhor,  quero que pense na produção da saliva. A saliva também é de produção glandular, nos não andamos por aí com as bochechas cheias de saliva, não é mesmo? A saliva na nossa boca é produzida quando é necessária, para umidificar a boca enquanto conversamos, para começar a digerir os alimentos que mastigamos, ou até mesmo quando estamos com fome e sentimos o cheirinho delicioso do alimento sendo preparado. Assim, as glândulas salivares produzem na medida que tem demanda. De forma similar, as glândulas mamárias produzem na medida que há uma demanda de leite, ou seja, na medida que os dutos lactíferos são esvaziados as glândulas vão produzindo. A diferença está em que a demanda do w materno é controlada pelo bebê.

O quê regula a produção de leite materno?

A qualidade e a frequência das mamadas é o “sinal” que nosso corpo usa para regular a produção do leite materno (quantidade e composição). Assim, qualquer interferência nesse “sinal” pode passar a mensagem errada para nosso corpo e alterar a produção de leite materno. Ao entender que o leite materno é de produção glandular e que essa produção é controlada pela demanda do bebê, vemos então a importância de usar uma boa técnica (pega correta e postura adequada), amamentar em  livre demanda e evitar a interferência de artifícios  (chupetas, mamadeiras, intermediário de silicone) para ter uma amamentação bem sucedida. 

A produção de leite materno é regulada pelo nosso sistema hormonal e pelo próprio leite. Basicamente são dois hormônios que participam ativamente desse sistema modulador: A prolactina e a ocitocina. Ambos são essenciais, são uma equipe inseparável, um sem o outro não funciona, não adianta tentar artifícios para aumentar a prolactina se a ocitocina está escassa. Da mesma forma que não adianta tomar ocitocina sintética se a prolactina está baixa. A atuação de um estimula a atuação do outro e vice-versa, em biologia isto se chama sistema de retroalimentação.

A prolactina sinaliza ao nosso corpo o tamanho da demanda, ela estimula as glândulas mamárias a produzirem leite. Enquanto o bebê suga o seio há um pico de prolactina que irá garantir a produção de leite para a próxima mamada. Ou seja, quando a criança mama está tomando o leite estimulado pelo pico de prolactina da mamada anterior. A amamentação frequente mantém esses níveis de prolactina elevados, garantindo que sempre irá ter leite no seio. Sabe aquelas fases que parece que o bebê não quer sair do seio? Essas fases são essenciais para seu corpo se adequar à nova demanda do bebê, o esvaziamento constante dos dutos durante a mamada estimula o aumento da quantidade de prolactina circulando no seu corpo, assim seu corpo pode ir acompanhando essas mudanças na demanda na medida que seu bebê cresce.

Produção de Leite Materno fig 1

Um aspecto bem importante da prolactina é que ele é um hormônio de ciclo circadiano, ou seja, é regulado por nossos ciclos de sono e vigília. Quando dormimos temos um pico de produção de prolactina, o que acontece geralmente a noite ou de madrugada, mas podemos ver que a mãe que amamenta produz mais leite sempre que consegue descansar bem, seja relaxando, dormindo durante o dia ou com um sono de melhor qualidade na noite. Uma mãe que amamenta raramente consegue 8 hs de sono seguidas, nosso corpo se sincroniza com o organismo do bebê, muitas vezes acordamos a noite  ou madrugada antes mesmo do bebê se manifestar. Se você é mãe já deve saber que qualidade do sono não significa necessariamente quantidade, as vezes 2-3 hs seguidas de sono em que você consegue até sonhar já é suficiente para recarregar baterias de um dia extenuante. Se você sente dificuldades para amamentar no final da tarde, uma boa estratégia é dormir à tarde por exemplo, irá melhorar a sensação da quantidade de leite materno nas mamadas após a soneca. Quando há sensação de pouco leite uma das medidas mais urgentes é amamentar a noite e madrugada para ajudar os níveis de prolactina se regularem à demanda do bebê.

O outro hormônio, a ocitocina,  é conhecido popularmente como o hormônio do amor, entre outros, ele é liberado durante o sexo, o trabalho de parto, o nascimento e também durante a amamentação. Quando o bebê encosta no seio, suga ou até mesmo quando pensamos em nosso bebê (no trabalho por exemplo), o hormônio é produzido em nosso corpo, o leite mesmo sem o peito estar “cheio” pode pingar. Durante a amamentação a função principal da ocitocina é a ejeção do leite materno, sem ele o leite materno produzido não encontrará uma saída para chegar na boca do bebê, ele estimula a abertura e propulsão do Leite materno através dos dutos. Uma característica importante desse hormônio é que ele tem os mesmo receptores celulares que os hormônios  que sinalizam os estados de estresse do organismo, cortisol, adrenalina e noradrenalina, ou seja, o estresse pode atrapalhar a saída do leite materno porque bloqueia os receptores celulares de ocitocina.

Se você amamenta e passa por um evento traumático ou está passando por uma fase de bastante estresse na sua vida cotidiana por qualquer motivo e não consegue relaxar o suficiente durante as mamadas, o seu leite pode ter dificuldades para sair, mesmo sentindo o peito produzindo e o leite descendo ele não encontra uma saída efetiva, podendo incluso ingurgitar. Para falar verdade, nós mães temos muitos motivos para nos estressar, as fontes de estresse podem ser desde emocionais, físicas ou fisiológicas , mas a boa noticia é que não é preciso ter uma vida perfeita e sem nenhum estresse para amamentar com sucesso, basta controlar pelo menos temporariamente essas fontes de estresse para conseguir realizar uma mamada efetiva. Parece óbvio, mas quando a vida está difícil de levar e é preciso amamentar o único conselho que pode ser oferecido é: RELAXE! Pelo menos durante os minutos da mamada esqueça o mundo, foque no seu bebê por esse instante, viva uma mamada de cada vez, um dia de cada vez. Na mamada a sua única preocupação deve ser garantir que a pega seja feita corretamente de forma a não sentir dor . 

Durante uma mamada não tem como solucionar nenhum aspecto da sua vida (exceto a sede ou a fome, então tome aguá ou coma algo). Depois, em médio e longo prazo você poderá avaliar as fontes de estresse da sua vida atual e ir corrigindo-as para melhorar a sua qualidade de vida em geral. Lembre que uma mulher tranquila é uma mãe melhor disposta.

O próprio leite materno também serve como modulador da sua produção, ele tem na sua composição peptídeos que inibem a produção no nível glandular, ou seja, se os dutos estão cheios a glândula para de produzir. Esse é um mecanismo de autoregulação que protege nosso corpo, sem ele as mães que amamentamos viveríamos constantemente com os seios ingurgitados (aumentando enormemente o risco de mastites). Mas isso não acontece por muito tempo, a adequação da demanda acontece entre 2 a 3 meses após o nascimento do bebê (pode ser antes quando não é o primeiro filho), isto significa que o sistema regulador começa funcionar em sincronia perfeita com a demanda do bebê (se tiver condições naturais claro).

Sabe aquela velha ideia que peito tem que “encher” para amamentar? Esqueça! Para ter bastante leite os dutos tem que ser esvaziados continuamente, quanto mais o bebê mamar mais leite vai receber.

como aumentar o Leite materno

O quê atrapalha a produção de leite materno?

Quero convidar vocês para refletir sobre alguns mitos da amamentação relacionados com a produção. Um é a velha ideia que o estresse seca o leite. Se o leite materno é de produção glandular, responde à demanda do bebê,  que estimula o sistema de retroalimentação hormonal da prolactina-ocitocina e se autorregula. O que acontece se a mãe atravessa uma situação de muito estresses? Pois bem, provavelmente ela experimentará dificuldades para a saída do leite pelo bloqueio dos receptores de ocitocina, mas a solução é simples, só precisa deixar seu corpo RELAXAR pelo menos durante a mamada , deixara ocitocina atuar, dessa forma os níveis de ocitocina irão se elevar e tudo voltará ao normal rapidamente. A queda de ejeção por causa de eventos traumáticos muitos estressantes é temporária, até os níveis hormonais encontrarem um novo equilíbrio.

Agora, pensemos no que acontece se a mãe espera o peito “encher” para amamentar,  marcando intervalos de mamadas fixos e retirando o bebê do seio em um tempo predeterminado? Nesse caso os dutos lactíferos não são esvaziados continuamente e o leite materno neles irá frear a produção das glândulas (pelo mecanismo autorregulador) e assim o sistema hormonal da mãe entenderá que não precisa mais produzir leite materno. Se essa situação se mantem por muito tempo é inevitável que a taxa de prolactina caia por falta de estimulo da ocitocina. Mas a solução é simples: passar fazer LIVRE DEMANDA do seio, dessa forma permitimos que nosso corpo encontre novamente o equilíbrio com a demanda do bebê.

Então vamos lá, repitam comigo:

– Peito é fábrica, não estoque!  A produção de leite materno é glandular.  

– Peito não seca magicamente! Mesmo o peito “murcho” sempre tem leite. Lembre-se da adequação à demanda.

– Estresse não seca o leite, dificulta sua saída, a solução é relaxar e amamentar.

-Amamentar é em livre demanda. Esperar o peito “encher” e controlar tempo de duração ou intervalo entre mamadas SIM diminui a produção de leite materno.

Texto de Zioneth Garcia.

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*Referências:

MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2009. SAÚDE DA CRIANÇA: Nutrição Infantil Aleitamento Materno e Alimentação Complementar. Caderno de Atenção Básica, nº 23. Brasília – DF. (veja pag.  19)

Comité de Lactancia Materna de la Asociación Española de Pediatría. 2004. Lactancia Materna: guía para profesionales. MONOGRAFÍAS DE LA A.E.P. Nº 5 .(c) Ergon. C/ Arboleda, Majadahonda (Madrid)

Donna T. Ramsay. Jacqueline C. Kent, Robyn A. Owens, and Peter E. Hartmann. 2004.  Ultrasound Imaging of Milk Ejection in the Breast of Lactating Women Pediatrics 2004;113:361–367

Carlos Gonzalez. 2015. Manual Prático de aleitamento materno. Edição português. Editora Timo.

Foteini Hassiotou, Anna R Hepworth, Philipp Metzger, Ching Tat Lai, Naomi Trengove, Peter E Hartmann and Luis Filgueira. 2013. Maternal and infant infections stimulate a rapid leukocyte response in breastmilk. Clinical & Translational Immunology, 2. e3; doi:10.1038/cti.2013.1 . Aceso 25 fev 2016: http://www.nature.com/cti/journal/v2/n4/full/cti20131a.html

 

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