Não tenha medo do choro de seu filho

A urgência de atender o choro muitas vezes nos deixa preocupados quando, por alguma razão, não conseguimos acalmar prontamente , seja porque não deciframos a causa ou porque não podemos atender ao pedido. Se é em público, então o constrangimento toma conta. Mas se você é mãe, pai ou cuidador de bebês ou crianças pequenas, deve saber que o choro faz parte da infância. Mais que calado ele precisa ser entendido, atendido e acolhido.

O choro é barulhento, irritante, estressante e todos os bebês nascem com essa capacidade bem desenvolvida. Isto porque o choro existe para incomodar, e incomoda muito mesmo, pois é para não ser ignorado, e sim para ser atendido pela mãe, o pai ou pelos adultos ao redor. Se fosse um som melodioso não nos incomodaríamos em ver uma criança chorando, certo? Mas, basta ouvir um choro de bebê ou criança que nosso senso materno ou paterno se acende, mesmo sem sermos mães ou pais ainda, temos a urgência de saber o que está acontecendo com aquela criança que chora… cadê seus pais ou responsáveis?

Precisamos nos lembrar que chorar é a primeira ferramenta dos bebês e crianças pequenas para expressar sensações ou sentimentos, desconfortos físicos ou emocionais são anunciados em bom som, com choro! Seja desconforto de gases, fome, frio, dor, frustração, raiva, dor, tristeza, etc. O problema não é o choro, é a forma como é atendido, o maior problema é o ignorar sistematicamente, na esperança que passe sozinho, ou pior, na esperança de ensinar a criança que chorar não funciona. O choro desatendido causa enormes níveis de estresse na criança. Ignorar o choro, ou usar o choro desassistido de forma sistemática pode acabar alterando seu sistema modulador de emoções em nível fisiológico em mediano e longo prazo, lhe deixando propenso a picos de estresse, agressividade mais frequentes e muito mais acentuados.

Imagem Canva.com – Assinatura Zioneth Garcia

Tipos de choro

Já desde bem cedo começamos a reconhecer os diferentes tipos de choro em nossos bebês, aprendemos a reconhecer o choro de fralda suja, atenção, fome, dor, etc. O choro do recém nascido e bebês novinhos é basicamente um grito de sobrevivência, seus instintos gritam mais alto, precisam se sentirem protegidos, eles não entendem que o carrinho ou berço é seguro, sua natureza os programa para se sentirem seguros no colo da mãe ou pai. Com o tempo, os tipos e intensidades dos choros mudam, aparece o choro de frustração que fica das tentativas sem sucesso de explorar o mundo, ao tentar sentar, tentar engatinhar, tentar se levantar, tentar andar, tentar e não conseguir. Nossos pequenos começam se expressar além de suas necessidades fisiológicas básicas, eles tem emoções, e as ruins e desconhecidas se expressam em forma de choro.

Na medida que nossos filhos descobrem o mundo, também descobrem e encontram obstáculos,  limites naturais expressados como regras de segurança,  regras de higiene e saúde, regras de convívio social, regras de convívio pessoais, até regras culturais. Todo limite encontrado no caminho pode causar revolta, frustração e choro, mas nem sempre podem ser plausíveis de negociação. Precisamos perder o medo do choro, e principalmente perder o medo das famosas “birras” , aquelas crises que é bom tentarmos evitar, mas que mesmo quando acontecem podem ser vistas como oportunidades de comunicação. Um antigo proverbio chinês diz: “toda crise oferece uma oportunidade”, pois bem, em educação não é diferente. Toda birra pode ser uma oportunidade se conectar e acolher, descobrindo mais sobre nossos pequenos , sobre nos mesmos.

Escutar, atender e acolher

Não se trata de fazer tudo o que a criança pede para não ver ela chorar, nem negar categoricamente todos seus pedidos sem considerar suas emoções para gerar crises constantes, basta ter bom senso. Nosso pequeno pode chorar, se jogar no chão, trepar nas paredes mas nem por isso vamos ceder ao pedido de pular pela janela de um segundo andar, certo?  Precisamos mostrar que existe esse limite natural, seres humanos não voamos, mesmo ele não gostando e ficando muito chateado,  é assim que as coisas são. Nos resta então acolher, mostrar como entendemos sua frustração e lhe permitir expressar sua chateação, é isso que ele precisa de nós. Saber que mesmo nos momentos ruins pode contar conosco. 

Também é importante conhecer e respeitar nossos pequenos , entendendo os seus limites, evitando os levar até o limite constantemente. Pedir para a criança exausta tolerar mais algumas horas de compras, ignorando sua rotina e ritmos metabólicos, pode ser demais para ela, nossos filhos também têm seus limites pessoais, cabe a nós conhecer e  respeitar. Saber quais as necessidades de atividade física, frequência de alimentação, sono e atenção emocional de nossa criança, em cada uma de suas fases de desenvolvimento, vai ajudar bastante para antecipar e assim evitar crises, mesmo em situações nas que sair da rotina é inevitável.

Ahhh mas é muito choro? Provavelmente você já se pegou pensando como todo mundo acha seu filho uma criança fácil, que sempre é mais calmo com a vovó, a babá ou na escolinha, mas com você por perto parece que chora com mais frequência ou em intensidade maior? Talvez essa frase tirada do livro “a criança mais feliz do pedaço” do Dr. Harvey Karp seja um bom consolo: As crianças fazem as maiores cenas com os pais. Somos as pessoas com quem eles se sentem mais seguros. Então, considere as birras como uma forma de elogio. Então, quando seu filho chorar por motivos que lhe parecem banais, pense que você deve estar fazendo algo certo, ele se sente seguro em se expressar com você!

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Enquanto nossos filhos são guiados no caminho do reconhecimento das suas emoções e alcançam a capacidade de expressá-las de outras formas, vamos continuar atendendo diversos tipos de choro. Nosso papel como pais e educadores será então entender e acolher o choro, ajudar essas crianças a reconhecerem suas emoções, dar nome a elas, para que no futuro consigam expressar adequadamente seus sentimentos, utilizando as ferramentas que lhes ajudaremos desenvolver, ensinando, aprendendo juntos, educando.

Espero que possamos ver o choro de nossos filhos como uma forma de comunicação, sem a urgência de lhes calar a tudo custo. Mudar a forma como encaramos o choro, tornando nossa abordagem acolhedora, sensível, empática. Focada na criança e suas necessidades e não na nossa urgência de passar o constrangimento e ter novamente silêncio.

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Texto original de Zioneth Garcia – atualizado 31/01/21

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