Como manter o aleitamento materno na volta ao trabalho?

Começa o ano e em muitas famílias começa o processo de preparação a uma nova rotina: a da adaptação à creche para a volta ao trabalho da mãe. A seguir respostas para algumas das dúvidas mais frequentes nessa fase.

Como começar com a ordenha?

Pense de forma positiva, tem muitas formas de ajudar aumentar seu estoque de Leite Materno rapidamente. Antes de começar calcule as quantidades de leite materno que irá precisar, elas podem mudar com o crescimento, introdução de alimentos e picos de crescimento (aumentar ou diminuir). Você não precisa ordenhar 200 ml de uma vez só, pode ordenhar ao longo do dia e os poucos ml que consiga ir juntando no mesmo pote no congelador até completar a dose certa para o peso de seu bebê. Para aumentar seu estoque comece por se hidratar muito mais, comer melhor e descansar, aproveite ao máximo o estimulo do bebê ao peito, pode ordenhar de um lado enquanto o bebê mama do outro, ordenhar depois que o bebê dormir do lado que ele não mamou, ordenhar de manhã assim que acorda do peito que ficou guardado de madrugada, ordenhar de noite os dois peitos enquanto o bebê dorme. Preste atenção especial à intensidade da ordenha se usa bombinha elétrica para que não machuque seu peito.

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A ordenha requer pratica, não se preocupe se no começo consegue uns poucos ml, 5- 10 ml nas primeiras tentativas É NORMAL! Celebre cada gotinha obtida e armazene! Aos poucos, e com estimulo correto e constante,  a ordenha vai melhorar. Lembre que igual à pega do bebê, a ordenha não deve doer, se doer pode ser sinal que a bombinha está mal colocada no seio. Relaxe antes de tentar ordenhar, coma um docinho, uma chá, ordenhe enquanto assiste um filme em casa, controle seu estresse fisiológico (comendo e se hidratando bem) e mental (tirando o foco da pressão da ordenha).

Não se preocupe tanto pela quantidade de leite materno que consegue armazenar antes de voltar trabalhar, construa um estoque para pelo menos uma semana assim terá tempo de se adaptar e ir reabastecendo-o com as ordenhas no seu serviço, e nos horários que estará em casa com o seu bebê.

Ainda no seu serviço você pode ordenhar e armazenar em um isopor com gelo gel, para manter ele frio e depois congelar em casa, num refrigerador o Leite Materno vai durar 24 hs em temperatura entre 5-10° (sem congelar), em temperatura de 19-25° o Leite materno pode durar entre 4-6 hs. Tempo de sobra para chegar em casa e congelar. Tenha uma foto do bebê pra ordenhar no trabalho, pode parecer bobo, mas muitas mães relatam que a descida do leite e a ordenha são mais fáceis quando tem algum objeto que pertence ao bebê, com o cheiro dele, por perto (com uma fralda, roupinha, até uma foto serve).

Quando você voltar pra casa e o bebê for mamar, você pode ordenhar o outro peito, pois assim terá o estímulo do bebê. É importante também ter um estoque de leite materno. Assim, se algum dia você não conseguir ordenhar ou se acontecer algum imprevisto, você não precisará oferecer leites artificiais.

Finais de semana e feriados são dias importantes para ordenha também, visto que você estará mais relaxada e descansada, facilitando a ordenha. Não deixe de ordenhar nenhum dia!

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Imagem de Zioneth Garcia, para GVA em 2013.

Quanto Leite materno devo deixar?

Bebês até 2 anos possuem estômagos com capacidade natural de 100-150ml. Pelo que, para um bebê em aleitamento materno exclusivo em livre demanda 150-200 ml podem ser alimento demais para sua capacidade gástrica, mesmo que oferecidos a cada 3 ou 4hs. A sugestão então, é deixar porções menores, de até 100-120 ml. No lugar de deixar 300 ml para serem oferecidos em 2 vezes de 150ml com intervalos de 3 hs, pode deixar os mesmos 300ml para serem oferecidos em 3 vezes de 100ml para serem oferecidos em intervalos de 2hs.

Se a mãe ficará longe do bebê por oito horas, no lugar de deixar 300 mL para serem oferecidos em 2 vezes de 150mL com intervalo de 3 hs, seria ideal deixar os mesmos 300mL para serem oferecidos em 3 vezes de 100mL em intervalos de 2 hs. Se ela deixar ele bem amamentado antes de sair às 08 hs, o bebê será alimentado as 10-12-14 hs e mamará em sua mãe novamente às 16h mantendo a livre demanda pelo resto do dia e até o dia seguinte.

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Não esqueça de considerar o tempo que ficará longe de seu bebê somando sua jornada de trabalho ao tempo que usualmente gasta no transporte e, se necessário, acrescentar mais uma dose de Leite Materno se há a possibilidade de você se atrasar. O resto do tempo que seu bebê ficar com você mantenha a livre demanda.

Como fica o aleitamento com a introdução alimentar?

Os alimentos que começam a ser introduzidos com 6 meses são COMPLEMENTARES, ou seja, eles não vão substituir o aleitamento, que continua sendo o principal alimento do bebe até 1 ano. Então adiantar a introdução alimentar não vai fazer diferença para você, e o fato dele comer não irá diminuir a quantidade de leite materno que ele precisa, mas sim fará muita diferença para o bebê, ele pode não aceitar ou aceitar pouco esse alimento. Geralmente com a introdução alimentar o ganho de peso dá uma freada, até o corpo do bebê se adaptar. Uma introdução de alimentos precoce ou acelerada (que começa substituir Leite Materno por comida) pode levar a vários problemas como a amamentação em ciclo reverso (mamar muito a noite e madrugada), comprometer o estado nutricional e até um desmame precoce.

Para bebês maiores ou que aceitam bem a comida, o ideal é congelar vários potes com 50ml. Essa orientação é importante pois, após ser descongelado, todo o leite materno que o bebê não mamou deverá ser descartado. O leite materno só pode ser congelado uma vez, ou seja, não pode ser re-congelado pois perde suas propriedades. Dessa forma, evitamos desperdício do leite.

Vamos pensar em um bebê de 10 meses que come bem, cuja mãe se ausentará por 8 h, ele possivelmente fará um lanche no meio da manhã, almoçará e tomará lanche da tarde na creche, nesse caso a sua mãe pode deixar 300 ml para que sejam oferecidos 50- 80ml para tomar às 9h (para tirar a soneca da manhã após o lanche), 50 ml com o almoço às 11h30 e 100 ml para tomar às 13h para a soneca da tarde, ele ainda tomará um lanche ou janta no fim da jornada às 16h, algumas vezes acompanhado de 50 ml de Leite Materno. Adicionalmente é ideal que nos períodos que o bebê não aceita alimentos facilmente a mãe possa deixar mais alguns potinhos com 50 – 60 mL de leite materno cada para que sejam oferecidos ao longo do dia nos horários das refeições que ele não tomar.

Como acostumar o bebê e o cuidador a nova rotina?

Dedique as suas últimas semanas em casa para acompanhar a adaptação ao novo cuidador, assim você e ele (a) poderão analisar a situação e testar diferentes jeitos/horários de oferecer o Leite materno na sua ausência. Veja bem, a ideia da adaptação é ir deixando o bebê sozinho com o cuidador aumentando gradativamente o tempo que ficarão sem você. Inicialmente serão por períodos de segundos ou minutos com você no campo visual ou auditivo, e esses períodos irão aumentando gradualmente até chegar ao total da sua jornada de trabalho. Esse período deve ocorrer antes mesmo da sua volta efetiva ao trabalho justamente para você poder auxiliar e amamentar caso o bebê estranhe.

O mais importante é se sentir segura e confiar no novo cuidador, isso permitirá que seu filho também confie nele e facilitará a adaptação. Ao tratar com qualquer cuidador, seja pago ou não, não esqueça que a mãe é você e por tanto é você quem decide sobre seu filho.

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Devo começar desde já a acostumá-lo sem peito?

Não precisa limitar o peito enquanto você estiver com o bebê, pelo contrario, aproveite cada segundo nas últimas semanas em casa para curtir ainda mais os prazeres da livre demanda e aumentar seu estoque de Leite materno. A adaptação ao novo cuidador será mais fácil se o bebê estiver emocionalmente estável e a adaptação à nova rotina será menos impactante no crescimento e desenvolvimento do bebê se ele estiver nutricionalmente ótimo. Limitando a demanda só vai trazer instabilidade emocional e arriscará a boa nutrição de seu filho.

Meu bebê irá mudar seu comportamento ?

Provavelmente sim, pode ficar mais grudado de você ou pelo contrario parecer não se importar quando você volta para casa, ambas situações são normais. Apenas capriche na livre demanda quando estiver com ele. Lembre que amamentar implica também uma fusão emocional, com o que seus medos e inseguranças podem ser transmitidos e manifestados pelo bebê, se for preciso converse com ele, mesmo que ele seja pequeno e não entenda sua linguagem, ele entenderá e se solidarizará com seus sentimentos. Falar fará bem para você, exteriorizar os seus sentimentos os valida, tornando-os conscientes para poder maneja-los.

Já seu filho será exposto a um novo ambiente, seja na creche ou pela presença de uma nova pessoa no seu lar, ele pode ficar doente com resfriado ou qualquer outra viroses comum, o sistema imune do bebê crescerá e gerará defensas novas para se adaptar à novidade. Não fique arrasada, faz parte do desenvolvimento imunológico, lembre que o seu Leite materno ajudará a fortalecer e desenvolver as defensas mais rapidamente.

Quando posso parar de deixar leite materno?

Vai depender do tempo e horário que o bebê fica longe de você. Uma vez bem engatada a alimentação complementar (9-10 m) você pode fazer uma retirada gradual do Leite Materno nos horários que ele não for mais indispensável, como na hora do lanche ou almoço, mas mantendo-o nos horários de sonecas que em geral são os mais importantes, já que o bebê com o Leite Materno fica bem satisfeito podendo assim descansar melhor e por mais tempo. Mas cuidado, se você percebe mudanças no ritmo que o bebê mama em casa, se ele começar a mamar mais, em horários pouco habituais e por mais tempo é um sinal que o leite materno retirado de dia está fazendo falta, e no caso volte atrás e comece deixar ele novamente.

Você saberá que é hora de deixar de enviar leite materno quando seu filho já se alimentar bem de todos os grupos alimentares, talvez comece não receber ou trocar o seu leite materno por outra coisa nos horários habituais, quando ele começar dormir as sonecas do dia sem precisar ser amamentado em casa e sem precisar tomar leite na creche. Mas principalmente quando a retirada do leite materno na rotina diária durante sua jornada de trabalho não causar alterações na sua rotina de descanso nos momentos que você e seu bebê estão juntos (a noite principalmente).

O quê fazer se o bebê começa acordar muito a noite após a mãe voltar trabalhar?

Esse pode ser um sinal de amamentação em ciclo reverso, acontece principalmente em bebês menores de um ano que ainda tem como principal fonte de nutrientes o leite materno, mas também pode acontecer em bebês maiores que deixam por algum motivo de se alimentar normalmente. Então, para garantir um bom descanso, comece avaliando a alimentação diurna e se for preciso inclua mais algumas doses de leite materno antes ou após as refeições, controle a quantidade de comida que está sendo ingerida pelo seu filho, muita comida pode prejudicar a ingestão de leite materno, principal alimento do seu bebê até um ano. Se seu bebê for menor de um ano seria ideal começar a deixar mais Leite Materno para ser oferecido durante o dia.

Preste atenção se há algum pico de crescimento, salto de desenvolvimento ou de ansiedade de separação rolando. Ofereça o aconchego, a calma, a segurança e o conforto de sua companhia, esses períodos são passageiros, tenha calma e investigue as causas antes de tomar qualquer medida drástica.

Por ultimo e não menos importante, maneje e controle a sua ansiedade antes e durante o processo de adaptação a essa nova dinâmica familiar. Se preparar e planejar com antecedência pode ajudar bastante para ganhar segurança durante o processo.

Precisando ajuda para planejar a sua volta ao trabalho?

A consultoria Mães com Ciência pode ajudar saiba como funciona aqui ou  Agende uma consulta virtual aqui

*Texto original de Zioneth Garcia

Veja também:

Meu bebê não pega mamadeira e agora como dou o leite? 

 

Fontes:

http://www.llli.org/faq/milkstorage.html

http://www.redeblh.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=360

http://evolutionaryparenting.com/transition-to-a-new-caregiver/

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