A cirurgia mamária atrapalha a amamentação?

A cirurgia estética mamária não é rara entre as mulheres que hoje se encontram experimentando a maternidade. Mamoplastia de aumento ou redutora, em princípio não deve atrapalhar a amamentação, as técnicas cirúrgicas continuam a se desenvolver,  procurando sempre manter ao máximo a integridade da funcionalidade do tecido mamário. Porém, complicações podem acontecer.

A produção de leite materno reduzida é talvez a queixa mais frequente entre as mulheres que amamentam após ter passado pela cirurgia mamária. Porém, o que diferentes estudos mostraram é que isto não significa que a mulher realmente tem a capacidade de produção de leite comprometida por causa da cirurgia. Inseguranças ao redor da amamentação são comuns a todas as mulheres, embora, a presença da cirurgia possa potencializar essas inseguranças  e dificultar todo o processo de estabelecimento da amamentação [1].

Estudos recentes sobre o impacto que a cirurgia estética nos seios pode ter sobre a amamentação,  sugeriram que a cirurgia de implante mamário pode causar danos nos dutos, tecido glandular ou inervação da mama. Enquanto que o  implante mamários pode exercer pressão sobre a mama capaz de danificar o tecido mamário ou bloquear os dutos laticíferos. Isto pode acontecer principalmente quando se apresentam complicações pós cirúrgicas [2].  

reducaomamas1

A mamoplastia redutora  não impede a amamentação desde que a inervação do mamilo esteja preservada, os ductos lactíferos e os seios lactíferos intactos, em comunicação com os poros lactíferos para permitir as sensações que atuam como gatilhos para os reflexos de produção e ejeção do leite. Por tanto, as técnicas da cirurgia de redução da mama que mantêm a aréola e o mamilo ligados à glândula mamária por um pedículo não afetariam a lactação, pelo menos em teoria. No entanto, na prática, observa-se que muitas mulheres com mamoplastia redutora prévia não conseguem sucesso na amamentação apesar dos esforços e da informação, antes da cirurgia, de que poderiam amamentar plenamente. De fato, existem vários relatos na literatura mostrando que a lactação, com freqüência, fica comprometida após cirurgia de redução das mamas [3]

Ao comparar o sucesso do aleitamento entre mulheres com e sem cirurgia mamária, a avaliação realizada entre 48 a 72 horas após o parto mostrou que todas as mulheres do estudo estavam amamentando. No entanto, no final da primeira semana após o parto, até por volta de 30 dias, a amamentação exclusiva entre as mulheres com cirurgia redutora e de implante foi significantemente menor quando comparada às mulheres sem cirurgia. Observou-se ainda que o impacto da cirurgia redutora foi bem maior do que o da cirurgia de implante, representando o dobro de risco para aleitamento não exclusivo [1].

Se bem, mulheres adultas possuem, em cada mama, entre 15 e 25 glândulas, e é praticamente impossível que a cirurgia danifique todas elas, outros fatores, podem influenciar negativamente o sucesso da amamentação. Esses são alguns dos fatores que têm sido documentados como responsáveis das baixas taxas de aleitamento materno exclusivo entre as mulheres com cirurgia mamária:

1- Assistência profissional à mãe com cirurgia mamária:

a falta de preparo dos profissionais na assistência a mulheres com dificuldade para amamentar, em especial as submetidas a cirurgias mamárias. É possível que mais mulheres submetidas a cirurgias estéticas da mama tenham sucesso na amamentação se assistidas por profissionais capacitados, com conhecimentos acerca das principais dificuldades na lactação dessas mulheres e habilidades no manejo dessas situações. Como o apoio é importante para a efetividade da amamentação, essas mulheres devem ser encorajadas a amamentar, pois muitas nem acreditam nesta possibilidade. Cerca de 52 % das mulheres submetidas a mamoplastia redutora nem ao menos tentam amamentar logo após o parto.

2- Tempo transcorrido desde a cirurgia

O risco para a capacidade de lactação aumenta com o tempo da mamoplastia de aumento inicial, uma vez que algumas mulheres enfrentam a necessidade de se submeter a reoperação para manter ou melhorar um resultado inicial ou para tratar complicações.  Por sua parte, para a mamoplastia redutora, maior tempo transcorrido desde a cirurgia melhora as chances de recuperação do tecido nervoso, os dutos laticíferos e a saúde do tecido glandular.  

3-  A técnica cirúrgica empregada 

Cirurgias que mantém a integridade da aréola e o mamilo não afetariam a lactação uma vez que os dutos e terminações nervosas estariam intactos. Hoje o corte periareolar procura manter ligados os dutos à glândula mamária por um pedículo, em teoria não afetaria a amamentação, porém pode se apresentar redução da sensibilidade do mamilo por alteração nas terminações nervosas do mamilo, e isto pode ter efeito negativo para a lactância. A sensibilidade reduzida está relacionada diretamente à cirurgia, sendo observada quando há um corte dos ramos laterais e mediano do quarto nervo intercostal ou das terminações nervosas do complexo mamilo-areolar. Nesses casos, o sistema regulador da produção de leite materno pode ter dificuldades para reconhecer o estímulo no mamilo, alterando assim a resposta da ocitocina e em consequência, a ejeção de leite materno  e a resposta da prolactina. Apresentando então, produção de leite materno reduzida apesar de mantida a técnica correta e a livre demanda.

Essa redução na sensibilidade do mamilo pode melhorar com o tempo, porém, é preciso muita atenção na postura do bebê no seio, usando diferentes estratégias, além da dor, para identificar a postura errada e prevenir a lesão mamilar. Mulheres com sensibilidade do mamilo reduzida podem apresentar maior incidência de lesões mamilares graves, outro fator que compromete o aleitamento materno.

4- Textura da cicatriz

 Em alguns casos a cicatriz da cirurgia pode formar uma fibrose, comprometendo a capacidade elástica do tecido. Quando a cicatriz é periareolar, o bebê pode manifestar dificuldades para abocanhar a aréola em um primeiro momento, tendo dificuldades para projetar o mamilo ao interior da boca e estimular o seio de forma correta.

cicatrizes-da-cirurgia-para-levantar-seios

5-Estabelecimento da amamentação 

Aspectos que afetam o estabelecimento da amamentação não podem ser esquecidos e podem atuar também como determinantes do sucesso da amamentação em esse casos: Trabalho de parto, amamentação na primeira hora de vida do bebê, alojamento conjunto, uso da postura e técnica de lactância corretas, livre demanda e ajuda no momento oportuno.

Se você é gestante e fez cirurgia estética nos seios, se prepare para todas as possibilidades, mas tenha presente que apenas com seu recém nascidos no colo será possível avaliar se a cirurgia terá afetado a amamentação ou não, o melhor a fazer é procurar o auxílio de profissionais prontamente. Com o estímulo adequado, da pega correta do bebê e as mamadas em livre demanda,  a amamentação é completamente possível mesmo após a cirurgia mamária.   

Uma vez com seu bebê em braços, é importante que acompanhe de perto a frequência de xixis e o ganho de peso. O ideal é que não ofereça água nem nada além do leite materno e observe de 5-8 fraldas em cheias de xixi durante o dia.  No caso do recém nascido apresentar baixa frequência de xixis, desidratação ou febre, não duvide em procurar ajuda profissional. Técnicas como a translactação podem ser usadas para garantir o aleitamento materno ou misto sem prejudicar o desenvolvimento do bebê. Essas técnicas podem ser utilizadas concomitantemente ao seio em livre demanda.  

Lembre que o peito é muito mais que alimento, ao amamentar você também oferece ao seu bebê a sensação de conforto, aconchego, e sensação de proteção que lhe transmitem calma e lhe permitem se sentir seguro e descansar. Então, mesmo se a cirurgia comprometeu a produção de leite materno, você pode continuar oferecer todos os componentes emocionais que a lactância materna oferece à criança.

Precisando ajuda?

A consultoria Mães com Ciência pode ajudar no sono, amamentação,  desmame, desfralde e disciplina positiva. Saiba como funciona aqui ou  Agende uma consulta virtual aqui.

 

Referências:

[1] de Andrade RA et al. Breastfeeding pattern in the first month of life in women submitted to breast reduction and augmentation. Jornal de Pediatria – Vol. 86, Nº 3, 2010. doi:0021-7557/10/86-03/239

[2] Schiff et al.The impact of cosmetic breast implants on breastfeeding: a systematic review and meta-analysis. International Breastfeeding Journal 9:17, 2014. doi:10.1186/1746-4358-9-17

[3] Giugliani E RJ. O aleitamento materno na prática clínica. J Pediatr (Rio J) 76(Supl.3):s238-s52, 2007

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s