A evolução da Livre demanda: mudanças com a idade do bebê

Você já deve ter ouvido e lido muito por ai o a expressão “dar de mamar em livre demanda”, e ouvido até o cansaço que isto significa dar de mamar para o bebê quando ele quiser, pelo tempo que ele quiser. Mas você entende o que isto significa de fato, na prática? Ai no seu dia dia? A livre demanda não é igual em todas as idades e fases de desenvolvimento da criança. Me acompanhe para entendermos melhor o que significa livre demanda em cada fase da amamentação. 

Depois de  ter amamentado duas crianças desde o nascimento até 2 anos e 2 anos 8meses, e ter prestado acompanhamento a umas quantas dezenas de duplas,  posso dizer que a livre demanda muda, essa ideia de “quando o bebê quiser pelo tempo que ele quiser” não funciona da mesma forma em todas as idades e bebês. A livre demanda para um bebê recém-nascido não tem o mesmo significado que pode ter para o bebê de 3-6 meses, para o bebê em alimentação complementar, para o bebê acima de um ano ou mesmo acima de ano e meio – dois anos. Na medida que o relacionamento entre mãe e filho cresce e evolui, a livre demanda do peito que parecia ser a solução a todos os problemas nos primeiros dias de vida, vai abrindo passo ao vínculo emocional sem a intermediação do seio. E é justamente aí, quando o peito não é mais necessário nutricional nem emocionalmente, que o desmame acontece, sendo mais tranquilo quando nos permitimos construir junto ao bebê caminhos de comunicação, negociação e entendimento que não precisam da intermediação do seio. Faz parte do crescimento da criança, da mãe e da família. Um caminho que começa logo após o nascimento.

 

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Ao tempo que nosso bebê cresce e se desenvolve física, cognitiva e afetivamente, nós vamos crescendo como mães e o relacionamento com nossos filhos vai evoluindo. Da mesma maneira, a livre demanda do seio vai evoluir e mudar conforme a dupla mãe-bebê cresce junta.  A forma como acontece o pedido de mamada, a fase do desenvolvimento que o bebê se encontra,  seu estado nutricional, seu estado emocional e até mesmo nossa disposição irão marcar as mudanças na livre demanda. Os bebês e crianças pequenas precisam ter suas demandas emocionais e nutricionais atendidas da melhor forma possível, sempre!  Assim poderão se sentirem seguros e terem um bom desenvolvimento. Mas precisamos parar para pensar um pouco mais sobre essa livre demanda emocional. Embora o seio seja a fonte mais rápida de conforto emocional, nem só a amamentação alimenta o relacionamento mãe – bebê.

Conforme evolui o relacionamento com nosso filho ou filha, as formas que temos de satisfazer suas demandas emocionais e nutricionais também precisam evoluir, assim o seio que era a única maneira de acalmar o bebê recém nascido p.e.,  passa a ser apenas mais uma alternativa para acalmar e satisfazer o apetite do bebê de 10-12-18-24 meses, e não mais a única. Assim como há vários tipos de choros, há várias formas de atender esses choros, é claro, seio quase sempre resolve, mas é isso mesmo que nossos filhos precisam sempre? Será que estamos abusando do peito usando ele como muleta em situações que poderiam ser abordadas de formas diferente? Quando é hora de pensar em responder à demanda emocional com outras ferramentas diferentes do seio?

 

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Livre demanda para recém nascidos

Para o recém-nascido, peito e colo são sinônimos de sobrevivência, nos primeiros dias estamos nos conhecendo mãe e filho, por isso peito é sempre uma saída para os choros desconhecidos, mas com o tempo, se nos permitimos o contato e a observação suficiente, vamos aprendendo reconhecer seus sinais, seus gestos e seus tipos de choros. Com os dias e semanas transcorrendo, passamos a saber quando é mesmo mamada para se alimentar, para se aconchegar ou para acalmar um desconforto. Assim, no caso de saber outra forma de acalmar o bebê fora do seio, podemos usá-la como recurso: um embrulho bem apertadinho, um balanço rítmico bem gostoso, sling, talvez um colinho paterno, ou deitar barriga para baixo sobre papai. Nem tudo é sempre solucionado com peito, cada bebê tem seu jeitinho, uns gostam de dormir no seio, outros não, umas mães gostam de ficar com o seio dentro da boca do bebê enquanto ele dorme, outras não. Na medida que vamos nos conhecendo e reconhecendo, a nossa relação com o bebê vai se construindo e começando evoluir.  

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Livre demanda 2- 6 meses

Quando nosso pequeno deixa de ser um recém-nascido e começa descobrir o mundo, depois dos 2-3 meses, o peito da mãe se mantém como sua fonte nutricional primordial,  mas graças ao relacionamento com sua mãe e ao relacionamento com algumas pessoas de confiança que estão sempre ao seu redor, já está em capacidade de receber conforto, consolo e aconchego de outras formas: colo, distrações com brinquedos, formas figuras cores, sons, etc. O mundo é uma janela aberta para o bebê que está começando rolar, querer sentar e descobrir a frustração de não conseguir fazer sempre aquilo que deseja, começam os gritos e balbucios, os choros de raiva e frustração. Aquele bebê que quer sempre ficar no colo, na altura dos seus olhos, para ver o que você está olhando, que não gosta mais de deitar, quer sempre ficar sentadinho, mesmo sem nem conseguir se sustentar.

Agora o peito nem sempre é aceitável para solucionar os problemas do bebê, quiçá até tenhamos a sensação de sermos deixadas para segundo plano, já podem passar períodos mais longos sem mamar, mas novamente devemos escutar e seguir nosso instinto e capacidade de observação. Oferecer quando observamos que já é necessária uma pausa nos estímulos e partir para a alimentação. A livre demanda tem mudado de significado, agora ela pode partir da mãe, porque o bebê pode se esquecer de mamar ou lembrar só quando está muito esfomeado ou cansado, o que complica a amamentação já que ele pode acabar consumindo menos do que realmente precisa. 

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Livre demanda 6 – 12 meses

Chegamos à fase de introdução alimentar e alimentação complementar (6 meses), o leite materno ainda é a garantia de boa nutrição, porém, é também um porto seguro no mundo novo de sabores e texturas que se abre frente ao paladar do bebê. Pode parecer não querer sair do seu porto seguro no começo, mas com o carinho, o exemplo e nosso incentivo uma hora ele pula nas águas da alimentação de sólidos de cabeça. Ao tempo que experimenta o mundo dos alimentos, um novo mundo se abre aos seus pés, o bebê já senta, começa engatinhar e muitos a andar. Eis que novamente a frustração pode tomar conta do bebê, o peito, claro, pode ser uma forma de acalmar e trazer ele de volta ao seu porto seguro, mas não é a única. Agora além de consolo e conforto precisa de orientação, para explorar o mundo dentro dos limites da segurança. Um bebê que cai nas primeiras tentativas de engatinhar ou andar vai chorar, o peito pode acalmar, mas pode também ser acalmado incentivando e encorajando com carinho e empatia, para que tente de novo e de novo, até um belo dia conseguir seu objetivo.

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Livre demanda acima de 1 ano

Na medida que continua crescer, o peito vai cedendo espaço nutricional para os alimentos que constituem a dieta da criança, é o processo natural, a amamentação então se torna gradativamente mais emocional que nutricional. Sendo bem sinceras, para muitas de nós se torna uma saída fácil para tudo e qualquer choro durante o dia, queremos conversar com a amiga e o bebê chorou por qualquer razão? Vem para o peito e pronto, há o silêncio desejado. De fato para o bebê também se torna uma forma segura de ganhar atenção de sua mãe, muitas vezes por falta de uma comunicação melhor ele pede peito em qualquer situação: fome, sede, insegurança, medo, dor, pedido de atenção. Agora que temos um bebê crescido podemos (e devemos) incentivar e estimular a formação de canais de comunicação para fazer nosso relacionamento mãe -filho continuar a evoluir, lhe oferecendo ferramentas para que possa se relacionar com o mundo, o pai, os parentes, a escolinha (se frequentar).

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Não se esqueça que a amamentação é uma via de mão dupla, é um relacionamento, e como em todo relacionamento quando algo não está bom para uma das partes não está bom para nenhuma delas. Quando uma das partes deixa de ser levada em consideração em um relacionamento, falamos de um relacionamento abusivo. Tanto o bebê como você, mãe, tem voz e voto na amamentação. A primeira pessoa com a qual seu bebê se relaciona é você, então é sua a responsabilidade de mostrar que existem limites pessoais em todos nos, sejam dados pelo cansaço, a dor, o desconforto, a vontade, seja sincera com você e especialmente com seu filho; é melhor deixar de dar uma mamada do que tornar o ato de amamentar um sacrifício, deixará de ser prazeroso para você e certamente não o será para seu filho.  

Siga seu instinto, escute seu corpo, se há dor, procure ajuda, se há cansaço procure uma forma de solucionar, teste, tente de diferentes maneiras, diferentes soluções, configurações na hora de dormir, rotinas, etc. Nem sempre o que funciona com meus filhos vai funcionar com os seus. Não tem fórmulas mágicas, não tem manuais de maternidade, ser mãe é instintivo para todas nós, cada uma constrói o próprio caminho. 

Precisando ajuda?

A consultoria Mães com Ciência pode ajudar com a amamentação, o sono, volta ao trabalho, desmame, desfralde e disciplina positiva. Saiba como funciona aqui ou  Agende uma consulta virtual aqui.

Texto de Zioneth Garcia.

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