O quê você sabe sobre autismo?

Desde 2007, o 2 de abril é celebrado como o Dia Mundial do Autismo. Essa data foi criada pela Organização das Nações Unidas para a conscientização acerca do transtorno do espectro autista. Já em 2010, a ONU declarou que cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com o transtorno do espectro autista. Podemos estar convivendo diariamente com alguém que manifesta está condição e nem sabemos. Por isso, para entendermos melhor o que é o Autismo, trouxe um texto da
Dra Lilian Nakachima Yamada , pediatra e especialista no diagnostico e acompanhamento de crianças com esta condição.

O que você sabe sobre autismo?

Por Dra Lilian Nakachima Yamada

O autismo é uma transtorno global do desenvolvimento, possivelmente diagnosticada antes dos 3 anos de idade e com certeza perto dos 3 anos. Não é uma doença exclusivamente neurológica ou psiquiátrica. É uma disfunção do neurodesenvolvimento que compreende 3 áreas: alteração na comunicação/socialização (estabelecer relacionamentos), presença comportamentos de repetição e alterações sensoriais.

Se eu descrevesse um menino de 3 anos, nascido de parto cesáreo (opção materna), a termo, sem intercorrências na gravidez, apgar 9 e 10, sem anormalidades físicas,  que sorriu com 45 dias, engatinhou com 9 meses, andou com 11,5 meses? Esperto, doce, muito ativo, alegre e inteligente, que olha nos olhos, que abraça e gosta de ser abraçado por quem o conhece; que interage com as pessoas, que brincava de “esconde e achou!” com 6 meses; que dorme bem, come bem, que sempre entendeu tudo que falamos e do que brincamos, que se diverte e diverte os demais, mas que com 2 anos e meio ainda não falava frases completas de forma funcional (diálogos correntes) e era um pouco tímido entre crianças da sua escola ou pessoas que não conhecesse ou fossem muito barulhentas.

Parece algo fora do normal? Se você respondeu “não”, está certo; se respondeu “sim”, também está certo. O menino acima pode perfeitamente ter apenas um atraso na fala e ser tímido como pode ser um pequeno com sinais de “autismo leve”. Surpreso (a)? Esse distúrbio faz parte de um grupo de síndromes chamado transtorno global do desenvolvimento (TGD), ou transtorno invasivo do desenvolvimento (TID), do inglês pervasive developmental disorder (PDD).[

Hoje o termo utilizado é Transtorno do Espectro Autista (TEA), devido a  variações de gravidade. O indivíduo apresenta as características descritas  mas que é diferente de criança para criança, podendo se falar em graus leve, moderado e grave.  O indivíduo pode ter sinais tão leves que passam despercebidos, parecendo ser apenas um indivíduo mais “retraído” e isso seja considerado como “o jeito dele, oras”. Pode ter um quadro com sinais mais evidentes, que viva em sociedade e vá à escola, mas que podem passar como os “estranhos” da turma, com muitas dificuldades e que para superá-las necessite ajuda profissional, tendo certa dependência de terceiros pro dia a dia. E, claro que existem os quadros clássicos do autismo descritos originalmente por Leo Kanner em 1943[, que nos saltam aos olhos e não deixam dúvidas diagnósticas.

Os casos graves são os que vemos facilmente, mas não os únicos dentro do número total de casos em relação à epidemiologia dos TEA. O verdadeiro “boom” de casos que se lê na mídia é pura e tão somente porque quadros leves e moderados passaram a ser notados. Os quadros graves continuam sendo diagnosticados, sem alteração de sua frequência; o que aumentou a estatística foram os casos dos “tímidos” e dos “esquisitos” que na verdade não são nada disso. São casos leves e moderados do TEA e que merecem ser tratados, para que exerçam da melhor forma suas potencialidades, que estudem, tenham sua carreira, formem suas famílias como os demais.

O autismo afeta, em média, uma em cada 68 crianças nascidas nos Estados Unidos, segundo o CDC (sigla em inglês para Centro de Controle e Prevenção de Doenças), do governo daquele país, em números de 2014. No Brasil, o único estudo estatístico foi realizado em Atibaia e traz um número próximo: 1 em cada 300 crianças nascidas vivas tem TEA.

Não há um fator etiológico único, são vários. Sabemos de um componente genético óbvio, pois em gêmeos monozigóticos quando um tem autismo, o outro tem de 60 a 90% de chance de também ter a doença (gêmeos não idênticos: 3%). Em famílias com uma criança autista, a chance de ter outro filho com essa condição é de 2 a 8% – 75 vezes maior que na população geral. Há também os gatilhos ambientais, mas se sabe poucos ainda: doenças virais que a mãe possa ter tido na gestação como rubéola, ou intoxicações como alcoolismo e drogas. Sabe-se também que síndromes genéticas são associadas ao TEA, por exemplo a Síndrome do X Frágil (>50% têm TEA) e Síndrome de Down (10% têm TEA).

Já se sabe o que VACINA NÃO CAUSA AUTISMO .  A vacina tríplice viral nada tem a ver com a gênese do autismo. O médico Andrew Wakefield, que alardeava essa correlação, teve seu registro profissional cassado em maio de 2010, após suas pesquisas terem sido dadas como fraudulentas. O mito de que uma maternagem ruim ou errada seria suficiente para que uma criança se tornasse autista é uma inverdade que devastou milhares de mães por muito tempo. As teorias psicanalistas foram alvo de defesa de Frances Tustin, referência quando se trata deste assunto, mas a própria Tustin em “A perpetuação de um erro” , retira tudo que disse em sua carreira, relatando que seria impossível que mecanismos psicodinâmicos desencadeassem sinais de autismo na mais tenra idade.

Atualmente, o diagnóstico é feito por equipe multidisciplinar[, composta de médicos, psicólogos e fonoaudiólogos. São feitas entrevistas com os cuidadores, avaliada a criança e seu meio (casa e escola). Por meio de escores internacionalmente padronizados e validados para o Brasil, há índices que indicam a presença de TEA e o grau de acometimento. Há que se descartar as síndromes genéticas e alterações das estruturas do sistema nervoso central, bem como algumas doenças metabólicas, que possam por si só ser desencadeadoras do quadro.  Para tanto são pedidos exames, isto, é, não que o autismo apareça nos exames, mas para descartar doenças associadas.

Não existe tratamento curativo para TEA, sim, não há cura. Os casos em que se diz que houve cura, ou são falsos, ou não eram TEA. O tratamento se baseia em psicoterapia comportamental, fonoterapia especializada, terapia ocupacional e escola regular com supervisão psicopedagógica. Não são todos os casos que necessitam medicação, apenas casos em que a autoagressão, hiperatividade e falta de atenção são excessivos recebem drogas para que seja possível a realização das terapias. O objetivo das terapias é adequar comportamentos, extinguindo as estereotipias (movimentos de repetição sem função) e comportamentos de autoagressão, estimulando a fala espontânea e uma socialização mínima e suficiente para que a criança, adolescente ou adulto possa se incluir em uma vida “comum”.  

Hoje em dia se fala em intervenção precoce antes de 3 anos de idade, sendo possível antes de 1 ano levantar suspeitas. O devido tratamento faz com que a criança desenvolva suas potencialidades e tenha uma vida o mais saudável possível.  O diagnóstico só finaliza acima dos 5 anos de idade, pois a formação de algumas funções neurológicas se dá por essa fase e antes disso pode ser estimulada e melhorada.

A inclusão escolar é um capítulo à parte no que diz respeito às necessidades da criança com TEA. Sabemos que cada caso tem suas peculiaridades e que casos leves e moderados podem e devem acompanhar suas turmas em escolas regulares, mas casos graves podem não ganhar nada ficando em sala de aula. O termo mais adequado que governo e educadores deveriam adotar é “inclusão responsável” em que a criança com qualquer deficiência, como TEA, por exemplo, frequente e tenha ganhos com a escola regular. Isso apenas acontecerá se ela se dispuser a aceitar cada uma e todas as crianças com suas diferentes formas de deficiência, adequando-se para tanto[.  

Poucos profissionais no Brasil são capazes de fazer esse tipo de diagnóstico. Ainda é algo novo e pouco divulgado, pois o estigma de que falamos no começo do texto não é somente na população em geral, é no meio médico também. Tendo dúvidas procure especialistas na área.

Texto por Dra. Lilian Nakachima Yamada  escrito originalmente para o Geração Mãe 2015, cedido gentilmente pela autora para o Mães com Ciência.

Sobre a autora: Dra. Lilian Nakachima Yamada é médica pela FAMERP (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto – autarquia estadual) em 2001. Pediatra pelo HCFMRP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto SP), oncopediatra pelo HCFMRP, Hematopediatra pela Hospital São Paulo/ Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Estudiosa sobre o Transtorno do Espectro Autista desde 2009. Atendendo casos novos de atrasos de desenvolvimento desde 2011. Realiza atendimentos em pediatria geral e suspeitas de autismo pela Unimed e particular.


Alguns sites interessantes:

http://www.autismoerealidade.org

http://lagartavirapupa.com.br

http://www.autismspeaks.org/

https://www.cdc.gov/media/releases/2014/p0327-autism-spectrum-disorder.html

Referências

SCHWARTZMAN, José Salomão, Autismo e outros transtornos do espectro autista. Revista Autismo, edição de setembro de 2010.

WHO. International Classification of Diseases, Tenth Edition. Geneva: World Health Organization; 2018

Manual Diagnósico e Estatístico de Transtornos Mentais – Dsm V – 5ª Ed. 2014

Autistic Disturbances of Affective Contact”, Nervous Child 2 (1943): 217-250. Reprinted in Childhood Psychosis: Initial Studies and New Insights, ed. Leo Kanner (Washington, D.C.: V. H. Winston, 1973). Also reprinted in Classic Readings in Autism, ed. Anne M. Donnellan (New York: Teacher’s College Press, 1985).

Ribeiro SHB. Prevalência dos transtornos invasivos do desenvolvimento no município de Atibaia: Um estudo piloto [dissertação]. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie; 2007.

Kates, W.R. et al., Neuroanatomical and neurocognitive differences in a pair of monozygous twins discordant for strictly defined autism, Ann. Neurol., 43:782-791, 1998.

Autismo: Manual para as Famílias. Disponível no site http://www.autismoerealidade.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Kit-Primeiros-100-Dias.pdf

Godlee F, Smith J, Marcovitch H. Wakefield’s article linking MMR vaccine and autism was fraudulent. BMJ. 2011 Jan 5;342:c7452

Silva, Micheline; Mulick, James A. Diagnosticando o transtorno autista: aspectos fundamentais e considerações práticas. Psicol. cienc. prof; 29(1):116-131, mar. 2009

CAMARGO, Síglia Pimentel Höher  and  BOSA, Cleonice Alves. Competência social, inclusão escolar e autismo: revisão crítica da literatura. Psicol. Soc. [online]. 2009, vol.21, n.1, pp. 65-7

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