Falando um pouco sobre febre.

Quem é mãe já teve que lidar com uma ou varias febres, sem importar a idade de nossos filhotes, sempre é motivo de preocupação. Mas nem sempre a febre é ruim, alias a febre é um sinal positivo de um sistema imunológico defendendo-se. Por isso, para deixar mães e pais mais tranquilos a Dra. Lilian Nakachima Yamada escreveu um texto para nos explicar mais sobre a febre, e gentilmente compartilhou aqui no Mães com ciência.

“Quando a gente engravida ninguém fala para gente que nossos filhos vão ter febre e que vamos arrancar os cabelos pensando em tudo de mais grave que já vimos e ouvimos, certo?

Poxa, a gente, como mãe, cai de paraquedas no mundo das viroses. E eu como pediatra penso que os pais gostam de estar mais seguros dos cuidados com seus filhos, visto que ninguém conhece melhor o filho que a mãe e o pai (teoricamente). Então vamos lá.

Três horas da manhã, você colocou seu filho para dormir ótimo e de repente ele acorda chorando, você vai ver e ele está com 37,8C de temperatura (sem mais nenhum sintoma). Sua reação é: sair correndo para o pronto socorro? Deixar ele lá chorando para ligar imediatamente para o pediatra? Retirar cobertas e roupas da criança e dar um banho morno? Medicar com antitérmico e observar mais sintomas?

Espero que ao final do texto mais mães possam “medicar com antitérmico e observar” do que “sair correndo pro pronto socorro”. Explico.

A febre isoladamente não quer dizer quase nada. Então: “o que raios” é a febre?. A febre é o sinal de que seu corpo está trabalhando para combater algo anormal que o está agredindo. Como agentes mais comuns desse ataque temos vírus, bactérias, fungos, protozoários. O corpo produz anticorpos, células de defesa e proteínas de reação inflamatória e isso tudo junto aumenta a temperatura do organismo. Dessa forma a febre é apenas um sinal e não um mal a ser combatido. É preciso entender qual agente está agredindo o corpo e tentar ver como ajudar essa criança a vencer essa infecção.

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A imensa maioria das vezes que temos febre a causa é um vírus ou bactéria e as mais diversas infecções podem ser causadas por um ou outro, ex: meningite viral ou meningite bacteriana, gastroenterite viral ou bacteriana, conjuntivite viral ou bacteriana, sinusite viral ou bacteriana, otite viral ou bacteriana, amigdalite viral ou bacteriana. Sim, repeti várias vezes viral ou bacteriana pois é isso mesmo e (IN)felizmente mais de 80% das vezes a infecção é viral, seja resfriado, gripe, gastroenterite, dengue ou outros mais . Ou seja, seu filho está doente, claro, ele está com febre, carinha desanimada, sem fazer “arte”, mas na imensa maioria dos casos não haverá tratamento curativo já que para infecção viral não há antibiótico (exceção GRIPE que temos oseltamivir). Por isso não precisa antibiótico para “gripe forte” ou “virose” em geral. Temos que hidratar bem a criança (a febre faz transpirar e uma criança doente perde o apetite, podendo desidratar), baixar a febre, dieta o quanto (se)aceitar, repouso, aguardando a imunidade própria de cada ser humano eliminar o vírus.   

Não adianta “atirar no pato para acertar o ganso”. Mas o que acontece normalmente? Vemos crianças usando antibiótico e em 12 horas a febre passa. “Nossa! Que antibiótico bom!”,  pensa a mãe. Mas… o antibiótico demora pelo menos 24-48hs para fazer efeito, então se em 12hs passou a febre não foi o antibiótico que combateu a infecção, certo? Ou seja, sarou de outra forma. E o que o corpo tem a capacidade de combater sem antibiótico? Vírus! Bingo!  Não precisa de antibiótico para vírus, mas as mães “piram no antibiótico” pois ele “salva” tudo e rápido, já que elas viram alguma vez isso acontecer… Dá para ver porque é complicado perder o medo do ciclo: pronto socorro-antibiótico-cura? Mas é preciso entender tudo isso para poder começar a se libertar desse ciclo. Temos cada dia mais bactérias resistentes porque se usa muito antibiótico sem necessidade e se seleciona cada vez mais bactérias resistentes. Não há previsão de novos antibióticos pros próximos anos, então temos que usar com cuidado, pois em pouco tempo podemos padecer com uma simples amigdalite.

Imagem de Residência Pediátrica 2011;1(2):31-6

Voltando lá no começo. Não há um consenso sobre acima de que temperatura é febre. Mas em geral se usa 37,8C de temperatura axilar para o limite “tem febre ou não”. O grau da febre nem sempre nos diz se é infecção viral ou bacteriana. E nem sempre no primeiro pico febril o médico consegue identificar o foco/causa/agente da febre. Por isso muitas vezes examinamos a criança e não encontramos “nada” e pedimos para mãe retornar em 24-48hs. O corpo demora esse tempo, muitas vezes, para localizar se vai ser uma otite, resfriado, uma gastroenterite ou uma pneumonia etc. Então como não tem como adivinhar, temos que aguardar, deixando a criança “quietinha”, medicada para febre, dor, bem hidratada E ESTÁ CORRETO FICAR SEM ANTIBIÓTICO caso não tenha foco ainda, ok?

Na maioria das vezes essa reavaliação nem vai acontecer, visto que as infecções virais, VULGO VIROSES, passam em 48hs, sem deixar saudades.

Se a criança mudar o estado geral, principalmente se nos períodos afebris estiver muito apática e “largada” deve ser reavaliada imediatamente. A gente sabe quando nosso filho está diferente. Mas isso tem que ser sem o fator “febre”. Todo mundo com febre está cansado, mal humorado e sem querer comer e brincar. Passada a febre a criança está “nova”? Isso é estado geral preservado.

E se criança segue com febre em 48-72h, sem sinais ou sintomas extras, ou que passa a localizar algum sinal (tosse, diarréia, dor de ouvido, garganta, etc) precisa ser reexaminada. Pode ser que o foco com sinais de infecção bacteriana apareça e seja prescrito antibiótico, mas novamente, o mais provável é aparecerem sinais de infecção viral e a mãe será liberada sem antibióticos.

Há um caso em que chamamos febre sem sinais localizatórios. Ou seja, a criança tem mais que 72hs de febre sem outros sintomas e sem sinais de onde possa ser a infecção ao exame físico apenas. Parte-se então para exames. Pode-se começar por raio x de tórax (qualquer idade) e rx seios da face (maiores de 4 anos), hemograma e PCR (ajudam a ver se há sinais para bactéria ou vírus), urina rotina (infecção urinária sem sintomas é causa comum de febre em menores de 1 ano). Um último foco que JAMAIS pode ser esquecido é a meninge (membrana que recobre o cérebro) e caso tenhamos um hemograma infeccioso sem outros exames alterados, pode ser que tenhamos que fazer o exame de liquor para ver se há infecção nesse local.

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Exames podem ser pedidos em casos em que temos o foco definido, mas precisamos ver a gravidade do caso, ex: Raio X numa pneumonia, para ver se há “água no pulmão” – derrame pleural ou um hemograma numa infecção urinária, para ver se a infecção está avançando dos rins para a circulação sanguínea e com risco de complicar com infecção generalizada.

Febre não é sinal de que precisa de antibiótico e nem de exames em todo e qualquer caso. Como podem ver é a minoria das vezes.

O ser humano vai ter sua imunidade “mais forte” por volta dos 3-4 anos de idade. Até lá veremos nossos filhos doentes de vez em quando e os que vão na escolinha ficam doentes quinzenalmente. A escola é um verdadeiro mar de vírus e bactérias. Os pequenos trocam chupeta, se abraçam, espirram um no rosto do outro, dormem perto e vaporizam seus microorganismos por todo o ambiente dividindo as mais diversas formas de infecção para todos. É uma semana doente, uma se recuperando para a próxima infecção. Exceções são quase um milagre! Então se a criança fica doente duas vezes por mês e vamos usar antibiótico em 20% das vezes somente, vamos usar 5 vezes no máximo durante o ano e não quinzenalmente, entendido?

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Casos especiais:

– recém nascidos (principalmente se prematuros): nenês até 30 dias de vida são denominados recém nascidos. São pequenos seres humanos que não têm imunidade nenhuma (melhora muito quando amamentamos), mas em geral não deu tempo de terem todos os anticorpos necessários. Assim, febre em RN tem que ser visto imediatamente pois como as “defesas” ainda são fraquinhas, o mínimo sinal de infecção bacteriana deve ser tratada. E há algo chamado desidratação hipernatrêmica. Nos primeiros dias de vida enquanto a mãe não teve apojadura de leite materno ainda (e sempre tem quem cobre demais um RN fazendo-o transpirar) podemos ter um aumento de sódio proporcionalmente à quantidade de água, o que causa febre e até mesmo convulsões.  Então nesse caso a febre não é infecciosa e vai “sarar” hidratando bem esse RN. Assim, RN com febre tem que ser visto pelo pediatra.

– pacientes acamados/doenças crônicas: nossos pequenos que se movimentam menos e têm patologias de base crônicas, podem já ser colonizados por bactérias e têm mais chances de a infecção ser bacteriana.

Espero ter ajudado!  “

Texto por Dra. Lilian Nakachima Yamada  escrito originalmente para o Geração Mãe 2015, cedido gentilmente pela autora para o Mães com Ciência.

22728642_1922040711379553_751381677220936571_nDra. Lilian Nakachima Yamada é médica pela FAMERP (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto – autarquia estadual) em 2001. Pediatra pelo HCFMRP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto SP), oncopediatra pelo HCFMRP, Hematopediatra pela Hospital São Paulo/ Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Estudiosa sobre o Transtorno do Espectro Autista desde 2009. Atendendo casos novos de atrasos de desenvolvimento desde 2011. Realiza atendimentos em pediatria geral e suspeitas de autismo pela Unimed e particular.

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