Relato de introdução alimentar BLW: as flores e os espinhos

O relato de hoje é escrito pela mãe Talita Veronezi, quando Eva, sua pequena, tinha 1 a e 2 meses, de isso já faz mais de um ano. Ou seja, hoje Eva tem mais de 2 anos e 6 m. Além de mãe super dedicada e estudiosa, ela está terminando seus estudos em pedagogia, realiza estagio na pedagogia Montessoriana e compartilha suas vivências através do instagram @diariomontesori.

Relato de introdução alimentar BLW: as flores e os espinhos

Por Talita Veronezi

Já começo explicando que de forma alguma sou contra o método BLW (Baby Lead Weaning ou Alimentação guiada pelo bebê), caso não conheça esse método, em resumo: é a introdução de sólidos com alimentos in natura em que o bebê seleciona o que, e o quanto quer comer em cada refeição, sendo o papel da mãe apenas de espectadora (da bagunça toda) . Fiz a introdução alimentar de minha filha  pelo método BLW e não, eu não me arrependo, mas nem tudo são flores.

Eu sou uma mãe como você, que gosta de ler tudo sobre o universo da maternidade e se debruça em conteúdos sobre amamentação, introdução alimentar, alimentação saudável, receitinhas e etc. e que procura colocar todo o aprendizado em prática no dia a dia com um sorriso no rosto e muito amor no coração. Só que sou uma mãe com privilégios que de longe uma mulher na minha condição (dona de casa / autônoma) pode ter como realidade.

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Então para começar vou listar aqui o que chamo de “meus privilégios”:

  • Meu marido e eu trabalhamos de casa e dividimos todas as tarefas da casa e da nossa filha todos os dias, aqui é 50% pra cada um sem brincadeira;
  • Meu marido adora cozinhar, então o trabalho do cardápio diário é todo dele (eu fico com as receitinhas de lanchinhos saudáveis e com a louça enquanto ele brinca com a Eva, ou dá banho, ou troca, ou leva o cachorro pra passear ou limpa alguma coisa);
  • Eu preciso viajar uma vez por mês e geralmente durante esse período de viagem minha sogra vem para limpar a casa, lavar e passar a nossa roupa (todo mês um presentão desses, que maravilha hein!);

Pronto, só aí já dá pra ver que tenho algumas vantagens em relação a outras mães que trabalham e precisam cuidar da casa e do bebê sem ajuda, ou das mães que são donas de casa e cuidam de tudo sozinhas porque o marido trabalha fora, ou qualquer outra situação diferente da minha.

Apesar de ter uma vida bem agitada entre passeios no parque, no Sesc, Natação, meu Pilates, minha Costura e estudos, ainda assim me arrisquei no BLW por conta da ajuda extra que recebo!

Quando a Eva completou seis meses iniciei o processo de Introdução Alimentar. Dava pedaços de legumes e frutas entre café da manhã e almoço, ao longo de algumas semanas fui introduzindo lanche da tarde e mais tarde o jantar, fiz um curso rápido de Introdução Alimentar na época e fiquei fascinada em saber como esse método pode ser bom para o desenvolvimento do bebê. Vou listar abaixo alguns dos benefícios de fazer o BLW:

– Incentivo a mastigação (melhor aprender com 6 meses engasgar e voltar a comer, do que com 3 anos engasgar e ter uma experiência tão ruim que faça com que a hora de comer seja um verdadeiro pesadelo);

– Desenvolvimento motor (eles ficam craques em segurar as coisas, e mais pra frente em pegar pequenos grãos com os dedinhos);

– A criança tem a possibilidade de distinguir sabores e texturas (bem melhor saborear e saber o que está comendo do que toda a refeição ter um único sabor (no caso a papinha));

– A criança é protagonista de sua alimentação e aprende a tomar as próprias decisões desde cedo (no caso entre o que quer ou não comer) e futuramente em todas as decisões da vida;

– A criança come apenas o que precisa / sente necessidade (afinal o ser humano não precisa de hora para ir ao banheiro, acontece naturalmente, assim como deveria ser com a alimentação).

Mas com tanta coisa boa, onde estão os pontos negativos, os espinhos, de toda essa história?

No início não foi tão simples como parece, tive muitas dúvidas e muito medo, eu não sabia se dava primeiro a cenoura ou a banana, nem se o tamanho cortado estava bom ou se a forma de cortar estava correta, se pegava a comida que caiu e tentava dar de novo ou se ela já tinha descartado aquele pedaço, e nem por quanto tempo eu deveria deixá-la se alimentando ou tentando se alimentar, além disso, cada gag reflex* que ela tinha representava uma mãe em desespero (mesmo sabendo que poderia acontecer, parece que com a Eva a frequência era maior), além de toda aquela bagunça que ficava depois para arrumar, chão, cadeirão, cabelo, roupa, era um banho por refeição. Eu não via a hora de chegar aquele tão falado momento que o bebê aprende a comer e deixa de fazer a sujeira. Aqui em casa esse dia nunca chegou, a sujeira rola até hoje (se deixar).

*Gag Reflex* (reflexo natural do bebê para devolver a comida que invariavelmente não passa do fundo da língua para a garganta porque não foi mastigada suficientemente, mas acreditem eles conseguem devolver, conte até 10 quando isso acontecer e se ele não devolver faça a manobra para desengasgar, mas conte até 10 e não faça como eu que no ‘3’ já queria virar a menina de ponta cabeça).

Mas o pior era alimentá-la na casa de amigos ou familiares, a Eva ficou tão independente que ela não comia se não pudesse segurar a comida na mão, então a sujeira rolava solta em qualquer lugar. Nos restaurantes eu via aqueles olhares julgadores (que mãe desleixada, olha a sujeira que essa criança faz, olha que desobediente essa criança que grita quando a mãe tenta dar a comida na boca dela). De outras mães (ah eu não deixo a minha filha fazer essa sujeira não). Tive que ouvir críticas até da família de forma disfarçada sabe? (Nossa aquelas crianças de fulano de tal, que não sabem comer, fazem a maior bagunça na mesa, eu acho isso de uma falta de educação tremenda) – pausa para cara de paisagem. Além das críticas com a alimentação em si (mas não pode dar nem um pedacinho de bolo? Porque não vai dar chocolate? Porque não pode comer a nossa comida “salgada e cheia de pimenta”? , porque não vai dar suco tadinha?). Entre tantos outros julgamentos.

Aos 10 meses a Eva já comia de tudo (que eu considero bom para ela, ainda não dou açúcar e sal é quase nada na preparação da comida) e eu fazia pratinhos com uma refeição completa para ela comer de colher. Nessa fase eu comecei a tentar dar a comida na boca dela, ensinando e incentivando ela a comer sozinha com a colher que ficava na mãozinha dela também. Imaginem uma criança sem coordenação tentando pegar a comida com a colher, e aí a força da tentativa faz com que a comida voe para todos os cantos da casa, inclusive na minha roupa, no meu sofá, e em lugares que descobrimos mais tarde por conta de formigas que passaram a frequentar espaços incomuns da casa. Imagine eu tentando sem falar “não” (porque aqui também tento a educação positiva), que a beterraba tem de ser pega com a colher e não com a mão. Imaginem quantas roupas eu perdi com manchas de comida!!!

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Após completar um ano, para ajudar, a Eva decidiu que não iria mais comer sentada na cadeira de alimentação. Ela resolveu comer enquanto fazia outra atividade, por exemplo, caminhar em círculos e voltar para pedir mais uma colherada, brincar com nosso cãozinho e voltar para mais uma colherada, pegar um brinquedo na prateleira e voltar para mais uma colherada (pelo menos ela me deixava dar a comida na boca nesse momento), mas sempre com alguma coisa na mão, uns brócolis, uma cenoura, um pedaço de xuxu ou tomate, etc fazendo com que eu ficasse com um paninho atrás dela limpando os restos de comida no sofá, na cadeira, nos brinquedos… Foi mais ou menos nessa fase (talvez um pouco antes até) que tirei o BLW 100% de e migrei para o atual BLW misto, o que me ajudou um pouco na casa das pessoas, porque agora a bagunça diminuiu pela metade, mas garanto que ainda há bagunça! Mesmo porque quando ela implica que quer comer sozinha, é praticamente impossível colocar uma colher na boca dela, ela grita ou chora, bate ou belisca e fala uma língua que parece com árabe nervoso, fica até sem folego, respira e continua com o árabe falso dela! Ela briga mesmo e muitas vezes eu não sei lidar com esse misto de sentimento: Um certo orgulho por ter dado tanta autonomia a ela a ponto dela decidir quando quer comer sozinha e quando eu posso dar na boca dela e um pouco de frustração por não conseguir “controlá-la” a ponto das pessoas acreditarem que ela é mal criada, mal educada e birrenta.

Eu não quero controlar minha filha, mas mãe é assim né? Acha que tem que controlar os filhos. Eu estou numa era de desconstrução total da educação que recebi para construir uma totalmente nova para a Eva, torço que tudo isso seja positivo para nós no futuro!

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Mas penso naquelas mães com menos privilégios que eu (ou nenhum) e não me imagino numa situação dessas tendo que resolver tudo sozinha, seja porque cuida da casa sozinha, porque tem dois ou mais filhos, porque tem pouca paciência para lidar com sujeira, enfim, seja qual for o seu caso, fazer o BLW não é tarefa fácil, nem no começo e nem no meio (ainda não sei como será o fim). Lidar com uma criança cheia de autonomia exige certa disciplina da mãe de não querer controlar o que já está descontrolado. Lembro-me do meu marido falando algumas vezes (mas agora é pra dar na boca ou na mão, ela não vai ficar confusa com a gente mudando de tática todo dia?). Por muitas vezes ela ficou tão suja, que eu saía com ela da mesa para dar banho e quando voltava meu marido já tinha limpado tudo (isso sempre foi um grande alívio).

Muitas pessoas que defendem o método e o fizeram 100% podem até me criticar dizendo que tive tanto trabalho no começo para “morrer na praia” agora que já está caminhando para o aprendizado de comer sozinha. Mas acho que já consegui muita coisa com o trabalho realizado até agora. Ela já aprendeu a mastigar, a deglutir, ela já sabe escolher entre sabores, texturas que mais gosta, ela já tem alimentos preferidos e menos apreciados, ela já tem um domínio muito bom da alimentação. Ela inclusive pede comida quando está com fome e diz que acabou quando não quer mais mesmo que seja algo que ela goste muito. Ensinei alguns sinais da linguagem de sinais para bebês e a Eva se comunica super bem comigo desde os 10 meses.

Acredito que amanhã ou depois ela vai aprender a utilizar os talheres de forma mais coordenada (espero que seja rápido), e eu terei uma pequena criança comendo de tudo, de forma saudável e consciente até que esteja satisfeita, sem gulas e sem reclamações (assim espero também).

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Só tenho uma dica pra você que está pesquisando sobre o método BLW ou que está começando a aplicar agora: prepare-se, principalmente psicologicamente, para uma fase como todas as outras que aguentamos! Prepare-se para aguentar desde as críticas até a bagunça e a falta de controle com seu filho, mas acreditando que tudo vai valer a pena no final e que esse é o melhor para o seu bebê!

Boa sorte para quem vai começar e para quem já fez me conta como foi o seu BLW, suas dificuldades ou se foi mais fácil aí do que aqui! 

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*Imagens do acervo pessoal de Talita Veronezi, publicadas sob autorização.

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