Relato de amamentação de minha Maria Isabel.

Eu sou bióloga, filha de enfermeira. Cresci achando que parto e amamentação eram coisa naturais, instintivas e que toda mulher pode fazer porque está na sua natureza. Mas quando entrei em trabalho de parto e depois que tive que amamentar minha bebê vi que não era bem assim, que a gente precisa apreender, amamentação é instintiva e cultural! Apesar de ter todas as informações na cabeça, a amamentação para mim não foi fácil no começo. O fato de estar longe da minha mãe, e de prestar atenção demais na opinião de terceiros me dificulto as coisas nesse começo.  

Eu poucas vezes senti meu peito duro de tão cheio, e no começo me senti traída pelo meu corpo. Já na maternidade deram NAN de copinho para minha bebê porque meu colostro demorou em descer, depois que vim entender que demorou porque meu trabalho de parto foi acelerado artificialmente, porque minha bebê não mamou na primeira hora, ela foi ao berçário e eu numa sala de recuperação. Só depois de algumas horas que nos encontramos da habitação, e apesar de eu insistir que queria amamentar deram fórmula de novo durante a noite, na minha frente.

Na maternidade me “ensinaram dar de mamar”, mas foi uma tortura, lembro-me da enfermeira beliscar meu bico e enfiar na boda da bebe pegando ela pelo pescoço sem um minimo de cuidado. Isso me machucou o bico, mas eu continuei fazendo desse jeito em casa, algumas semanas depois descobri que tinham me ensinado errado.  Nem sei o peso que Maria Isabel tinha ao sair da maternidade, queria sair de lá logo, não queria passar natal no hospital (era 24 de dezembro). Sai de lá com uma folha com as indicações do que deveria fazer com o RN, teste do pezinho, da orelhinha, do olhinho, vacinas, dar peito a cada 3 horas rigorosamente, e no máximo 20 min por mamada, dando os 2 peitos começando sempre pela ultima mama oferecida. Deixando na vertical por 10 min após a mamada. Lembrando isso hoje, vejo tanta coisa errada!!!

Desde o nascimento até o fim da primeira semana Maria Isabel perdeu 200 g, estava com 2500 gr. Ela só dormia, e como me falaram que RN era assim mesmo, eu deixava. Eu me sentia triste, e sozinha, todas contam com ajuda da mãe, mas eu não tinha a minha mãe perto, só conseguia conversar com ela no Skype uma vez ao dia, tempo no qual ela me orientava como dava. Meu marido apenas teve 3 dias uteis de licença, e em casa estava a sobrinha dele (16 anos) me ajudando com  a casa e a comida. Ou seja, estava eu com o peito e ela sem mostrar vontade de mamar, para completar meu leite ainda não tinha descido, liguei para o GO que receitou Plasil 8/8hs.

Na primeira consulta com o pediatra nessa semana ela recebeu receita de NAN, chupeta (olha o absurdo, segundo o medico assim meu peito machucado teria chance de sarar) e multivitamínico. Ao contar para minha mãe ela sugeriu trocar de pediatra e não dar nada além do peito, e assim fizemos. O leite desceu, porém a bebe não parecia com vontade de mamar, só dormia, era muito difícil colocar ela para mamar tinha que tirar roupa, e molhar a mão, os pês, o rosto com um lencinho molhado. Ela chegou ter sinais de hipoglicemia (minha mãe via Skype me ensinou fazer o teste de tônus muscular). Eu tomava plasil, medicamento que era usado como galactogogo, foi ele que deu aquela sonolência na bebê, ele também poderia ter gerado reação extrapiramidal, estamos falando de 8 anos atrás. Hoje ele não é mais recomendado.

Minha sogra chegou para dar uma força na segunda semana de pós parto, e viu uma bebe que só chorava e já soltou “essa bebe está com fome” vamos ter que dar uma mamadeira para ela, ou “está com cólica” vou comprar uma chupeta para ela. Pegava no colo horas a fio e me mandava descansar porque a bebe tinha mamado há pouco e era impossível ela ter fome de novo. Eu ainda seguia as indicações da maternidade. Meus peitos não enchiam como eu esperava. Meus mamilos ficaram machucados, mesmo tomando sol, passando Leite materno e lanolina parecia que saravam e em cada mamada voltavam a ferir. Com a pressão da sogra compramos uma chupeta e uma lata de NAN, minha bebe não pego chupeta e rejeito o a fórmula na primeira tentativa, e não insisti mais nessa vez.

Na terceira semana fiquei sozinha mesmo, só eu e a bebe, meu marido trabalha o dia todo. Então como ainda não sabia da existência dos Bancos de Leite, nem tinha mães perto, ou conhecia de grupos no Facebook, enfie-me no youtube ver vídeos de amamentação, massagem relaxante para o bebe, etc. Por sorte aprendi identificar e corrigir a pega, os mamilos machucados sararam, e como ficava sozinha não tinha ninguém me falando a hora de mamar, eu dava quando ela queria, quando eu queria, ainda não sabia o conceito da livre demanda mas na época tenho certeza que eu fazia.

Eu sentia meus peitos mais “cheios” até colocava absorvente no seio, mas sempre os trocava secos (isso me deixava constrangida).  Mesmo assim a bebe chorava muito no final da tarde, e eu chorava junto, me sentindo inútil, sozinha, desesperada por não saber o que fazer. Claro agora vejo que poderia ser qualquer coisa e não necessariamente fome. Meu marido foi um apoio vital, ele deixava almoço pronto a noite anterior eu só precisava esquentar no forno micro-ondas, e quando não conseguia fazer voltava na hora do almoço para deixar marmita para mim. 

Na consulta do primeiro mês (1mes) com outro pediatra, outra balança (balanças tem erro pela calibração o que deve ser considerado a cada pesagem), o ganho de peso foi pouco segundo a pediatra, ela estava com 3500g e 50 cm (775g e 4 cm de crescimento desde o nascimento), não sei porque eu também achei pouco. Vendo a curva hoje vejo que ela estava bem, na meia, era eu queria ver ela acima da meia. Sentia-me uma inútil ao ver minha bebe abaixo da minha expectativa, mas era minha expectativa que estava errada não minha bebê. Dessa consulta saímos de novo com receita de fórmula infantil, consequência da queixa de bebe chorando muito a noite, noites mal dormidas, de fome, de peito murcho, etc. E dessa vez eu dei, pelo desespero de noites sem dormir, acordando de hora em hora ou menos. Não sabia da existência dos picos de crescimento, do efeito vulcânico, tinha sling, mas pelo calor infernal da região onde morava era difícil usar (nunca se me ocorreu usar sem roupa!!). 

A primeira mamadeira foi na noite depois da mamada, 90 mL a contra gosto de meu marido, que sempre foi contra dar fórmula. A bebe cuspia, não sabia pegar no bico da mamadeira, eu praticamente jogava jatinhos na boca dela e ao final tive que dar em copinho, usava a tampinha da mamadeira como copinho, acho que tomou apenas 30 mL. Eu achava que antes ela sofria de cólica e gases, mas descobri que não, com a introdução do NAN  ela começou vomitar quase toda vez que o tomava, troquei 2 vezes de fórmula, e ai sim soube o que era uma bebê com muitos gases além de ver ela sofrer de prisão de ventre, todo causado pela fórmula.

Na época já estava dando 2 mamadeiras de 90 mL ao meio dia e a noite, porque comecei sentir que ao meio dia meu peito não tinha leite (ainda não sabia que o Leite materno se produz durante a mamada), e levava a mamadeira quando saiamos, porque sentia que todo mundo me olhava quando amamentava em lugar público, e isso me deixava desconfortável. E então chegaram os conselhos de dar chá, água de mamão, água de ameixa, água filtrada etc. Confesso para vocês que sucumbi no mamão e até resolveu um pouco a prisão de ventre da bebê, mas acho que fiz mal!! Sabendo da importância do aleitamento materno exclusivo acho que corri um risco muito grande.  

Com 2 meses e meio, Maria Isabel ficou 5 dias sem fazer cocô, com a barriguinha dura e muito desconfortável, sem pediatra, arriscamos ir ao PS, com tão boa sorte que dei com um pediatra que falava espanhol e conhecia o Dr Gonzalez (que eu nem fazia ideia na época, conheci esse dia) ele me incentivo deixar a formula de lado, me explicou que deveria ir devagar para que fosse duradouro, reduzir de 10-10mL a cada 3 dias,  e me explicou (sabendo que eu era bióloga e entenderia) o mecanismo hormonal de produção do leite materno (meu marido achou que o cara estava me paquerando kkkk). 

De lá eu sai quase batendo nas paredes, como eu fui tão burra? Como deixei minha bebe chegar a tal ponto de sofrimento?  Isso foi determinante para tirar a fórmula, comecei tirando a mamadeira de meio dia já que essa sempre voltava todinha, comecei ficar com ela no peito a tarde toda, usei mais o sling,  deixava dormir e mamar no sling. Atrasei-me na minha pesquisa, mas estávamos felizes. A mamadeira da noite foi mais difícil, comecei reduzir a partir de 60 mL, já que se fazia 90 sempre sobrava um tanto e a bebe vomitava outro tanto. Observei que ela dava sinais de satisfação e que eu não as estava respeitando (virar o rosto, apertar a boca, se jogar para trás). Com três meses um bebê toma 150 mL,  6 x dia de fórmula segundo a embalagem, ou seja, 90 mL, 60 mL 1 ou 2 vezes ao dia não contribui muito para o estado nutricional do bebê, é apenas para acalmar a cabeça de nos mães já que na mamadeira sim temos controle do quanto eles comem, no peito são eles que tem o controle. 

Fiz o plano de ir reduzindo de 10 ml em 10ml a cada três dias. Até que finalmente com 3 meses e meio já não dei mais mamadeira, joguei bicos  e pó fora para não ter mais tentação. Porém ainda estava o fantasma da prisão de ventre, mais uma vez fomos parar no PS, e o mesmo pediatra a atendeu (a desgosto de meu marido kkkk) isso me deu uma força enorme, a bebê tinha ganhado peso super bem, e a barriguinha estava normal, não parecia ter coco acumulado, ele me indicou outra pediatra acupunturista que me ajudaria com o problema dos gases e me incentivaria continuar no aleitamento materno exclusivo

Com 14 meses, mamava em livre demanda, pedia com um ”DAAAA”  puxando minha blusa, relaxei e a partir dali a amamentação ficou extremamente prazerosa. Nesse processo todo apreendi empoderar me, antes tinha vergonha de dar peito quando estávamos fora de casa, mas aprendi dar o peito onde seja e se alguma pessoa ficava me encarando com aquele olhar reprobatório ficava com mais orgulhosa ainda!   Passamos por roséola, infecção urinaria, resfriado, viagens internacionais e o peito sempre foi a salvação. Mesmo que ela não aceitasse nada de alimentos o peito sempre aceitava.

Me envolvi com vários grupos de apoio materno e comecei estudar muito mais profundamente esse universo da maternidade. Cheguei nas leituras sobre os picos de crescimento, a natureza do sono dos bebes, sobre o choro, tivemos alguns contra tempos com a aparição dos dentes, os picos de crescimento que viraram meu mundo de cabeça para baixo, mas dessa vez recebi ajuda, e não tive medo de perguntar.  Amamentar Maria Isabel me mudou, cresci, me empoderando da minha maternidade. Minha vida profissional também deu uma reviravolta. A experiência que tive, me levou procurar oferecer a ajuda que eu gostaria ter tid nesse comecinho.

Se quer saber como a historia termina, pode ver o Relato de desmame de minha Maria Isabel

Veja também

Como deixei o leite artificial e voltei ao leite materno exclusivo

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Texto original de Zioneth Garcia

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