Relato de amamentação de Carol Mafra: e quando dói?

O incentivo á amamentação, como uma politica de saúde pública é essencial, para todos nos, como especie e como cidadãos.  No coletivo,  a amamentação tem sido colocada como um ato político, de resistência ao contexto econômico, social e cultural atual. Porém, a forma como cada amamentação acontece é particular, de cada mãe, com cada filho; acontecendo a maior parte do tempo dentro do lar, onde cada dupla, mãe e bebê, enfrenta suas próprias batalhas. Hoje trago para vocês um relato de uma grande amiga, uma guerreira, que enfrentou a dor em diferentes níveis, enquanto amamentava cada um de seus filhos, até chegar ao seu limite, optando por manter a sua saúde mental e o bom relacionamento com os pequenos.

E quando amamentar doí?

Por Carol Mafra

A amamentação é o momento de maior conexão entre mãe e filho, vai muito além do alimento, é colo, é carinho, é amor, mas às vezes é dor. Sim, pode doer, e dói muito. Mas quando isso acontece é sinal que algo está errado e você deve procurar ajuda.

Amamentei meus dois filhos, o mais velho até 1a 8m e o mais novo até 12 meses. Para ambos amamentei até quando estava bom para os dois. Este meu relato é de momentos de dor na amamentação (não foram poucos), espero com isso ajudar outras mães que passam pela mesma situação, saiba que você não está sozinha.

Para começo de conversa preciso explicar que meu seio direito tem uma má formação no bico, é como se fosse uma meia lua com os dutos por onde sai o leite espalhados e com uma parte um pouco mais parecida com o bico (é difícil entender sem ver, mas não é algo usual).

Quando Lucas nasceu foi para o peito ainda na sala de parto, mamou o colostro na maternidade e logo que fui para casa meu leite desceu, nem senti a transição (a tal apojadura), mas ele sugava muito e forte, tinha uma boca pequena e eu não sabia como fazer o seio direito caber na boca dele, com isso mamava apenas na parte que lembrava o bico. Resultado: essa parte rachou, sangrou, doeu e a parte que não estava sendo mamada começou a empedrar. Depois de receber orientações no banco de leite de como colocar todo o bico na boca dele os problemas passaram.

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Carol e Lucas no Parque. 

Quando ele estava com uns 8 meses (em meio a esse pico de desenvolvimento que normalmente é bem puxado) teve uma gripe e ficou algumas horas a mais sem mamar. Resultado: mastite. No começo achei que era a mesma gripe, mas o peito direito começou a doer muito e notei que havia algo a mais. Fui ao médico, tomei antibiótico, mantive a amamentação e passou.

Lucas já estava grande e mamava apenas para dormir quando tive uma bolha de leite, apareceu um pontinho branco no bico do seio. A dor acontece quando o bebê suga, pois é um duto que está entupido, é uma dor que vem de dentro do peito, diferente da dor da rachadura. Fui falar com uma consultora em amamentação e fui orientada a furar a bolha para que o duto fosse desobstruído. Assim o fiz, mas na mamada seguinte lá estava a bolha lá de novo. Depois de umas duas semanas sem que houvesse melhora fui ao banco de leite, recebi a mesma orientação, mas não melhorava. Não houve melhora e fui a um mastologista, que me disse que a orientação estava correta, que deveria tirar a bolha e drenar. Mas ela continuava aparecendo e depois de mais de 1 mês tentando fazer a bolha sumir e sentir muita dor resolvi que tinha chego ao meu limite e a amamentação do Lucas terminou com 1a 8m.

Logo engravidei, Jorge nasceu em um parto humanizado sem intervenções e mamou ainda com o cordão umbilical pulsando. O leite já estava lá, novamente não senti a apojadura e pensei que terei maior facilidade na amamentação do segundo filho. Mas diferente do Lucas, o Jorge mamava menos e eu tinha muito mais leite (hiperlactação), meu seio ingurgitava a toda hora, eu fazia massagem para tirar os nódulos diariamente.

 

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Carol e Jorge

Com 14 dias de nascido o ingurgitamento não melhorava, sentia muita dor no seio direito e febre baixa, depois de ir ao banco de leite para tentar melhorar os pontos empedrados voltei para casa com muita febre e o seio vermelho. Resultado: mastite. Dessa vez foi muito mais dolorido, pois a pega foi prejudicada pelo empedramento, que se localizou no mamilo, o que dificulta o acesso para massagem, lembro de chorar de dor no dia do meu aniversário. Depois de umas duas semanas passou a dor, mas nas madrugadas de dor me pegava lembrando que o leite materno é o melhor alimento para os bebês, pois a dor é muita e tive vontade de desistir.

Por conta da hiperlactação tive ingurgitamento frequente, mas fiquei escolada, passei a perceber logo, fazia massagem e tirava os nódulos, mas a dor permanecia, às vezes o dia todo.

Quando ele tinha 7 meses percebi uma dor incomoda ao amamentar, pensei que eles estava com a pega errada, mas vi em sua boca manchas brancas no céu da boca, língua. Resultado: sapinho (candidíase mamária). A dor do sapinho é muito persistente, não acontece apenas na hora da mamada (ela é pior neste momento), fica ardido o tempo todo, parece que esfoliei o bico do peito. O tratamento é feito na mãe (no seio) e no filho (via oral), pois passa de um para o outro, tem que esterilizar copo, colher, mordedores, sutiã, toalha de banho, limpar brinquedos que vão a boca. Limpar a boca do bebê e o bico do seio com bicarbonato, em TODAS as mamadas.

Esse foi o primeiro episódio de candidíase mamária, depois desses vieram mais 2, com a mesma dor, os mesmos cuidados, medicamentos fortes, foram dias difíceis que me apegava ao fato que a amamentação é importante para o bebê.

Quando o Jorge tinha 1 ano comecei a sentir os primeiros sintomas da candidíase novamente e neste momento percebi que bastava, que tinha atingido o meu limite e decidi desmamar.

Resolvi fazer um desmame abrupto, da noite para o dia. Mas aí tive outro problema, como desmamar assim com a hiperlactação? Eu não quis tomar remédio, resolvi desmamar naturalmente, mas não foi fácil. Eu tive ingurgitamento muitos dias, fiquei fazendo compressa com gelo nos seios e mantive eles amarrados por quase um mês. Foi passando e consegui vencer mais esta etapa.

Sei que o desmame abrupto é errado, não é bom nem para ao bebê nem para a mãe. Para mim foi a solução, eu estava no meu limite, e depois de desmamar o Jorge nossa relação melhorou muito e conseguimos aproveitar mais.

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Foto por Pedro Son fotografia

Eu tenho a sorte de ter consultoras de amamentação perto, de poder contar com a ajuda delas para dicas, conselhos e orientações. Fui a médicos para conseguir os medicamentos que precisava, mas a candidíase mamária não é muito conhecida pelos profissionais.

Amamentar com dor não é normal, se você estiver com dor procure ajuda.

Precisando ajuda?

A consultoria Mães com Ciência pode ajudar no sono, amamentação,  desmame, desfralde e disciplina positiva. Saiba como funciona aqui ou  Agende uma consulta virtual aqui.

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