Amamentando durante a gestação

Amamentar estando grávida ou a lactogestação,  é um assunto rodeado de tabus e mitos, que acabam atrapalhando a amamentação em vigor e tirando o prazer da descoberta da nova gravidez. Muitas pessoas, sem nenhum sustento além da repetição popular e extrema falta de bom senso, falam para a gravida que amamenta coisas do tipo;  “se amamentar vai abortar” “vai tirar nutrientes do feto” “vai perder o bebê”. Vamos entender melhor de onde vem essa ideia, que a amamentação do filho mais velho poderia causar perda da gestação, e tentar desconstruir o mito. Me acompanhe a seguir.

Durante a  amamentação, assim como no sexo, o corpo libera ocitocina, aquela responsável pela contração uterina durante o orgasmo feminino, e a mesma responsável pela contração uterina durante o trabalho de parto. Em um raciocínio simplista, muitas muitas pessoas (incluso profissionais) inferem que se a amamentação estimula a secreção da mesma substância que estimula a contração durante o parto, então a amamentação pode causar aborto. Mas esse raciocínio está errado. Essa é uma simplificação bastante grosseira, e devo confessar que sinto um pouco de vergonha alheia quando sei de profissionais que contraindicam a lactogestação sem levar em consideração, ou desconhecendo qualquer evidência científica. No final desse texto apresento vários artigos científicos para quem quiser se atualizar.

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Amamentar induz trabalho de parto prematuro? NÃO

Durante toda a gestação o útero da mulher aumenta de tamanho, esse aumento vem acompanhado de um aumento no número de receptores de ocitocina em nível celular,  mas a progesterona (outro hormônio) bloqueia a conexão entre a ocitocina e esses receptores evitando a contração de trabalho de parto antes da hora certa. Só a ocitocina não é capaz de iniciar o trabalho de parto, é preciso um ambiente hormonal propício para tal, com  a diminuição dos níveis de progesterona além de uma serie de eventos fisiológicos que preparam o corpo para o trabalho de parto e parto. Assim, a ocitocina produzida durante a amamentação, ao igual que a produzida durante o sexo, é insuficiente para induzir um trabalho de parto se o corpo da mulher não está preparado para tal. Evidências sugerem que as taxas de ocitocina da mulher se mantenha estáveis durante a gestação, porém o numero de receptores de ocitocina no miométrio (camada muscular do útero) aumentam consideravelmente quando o fim da gestação se aproxima, permitindo que ligação entre a ocitocina e seus receptores induzam a contração do útero que leva ao nascimento apenas durante o trabalho de parto (1,2).

Analise comparativa das taxas de aborto espontâneo entre mulheres que amamentavam e mulheres que não amamentavam não tiveram taxas de perda gestacional maiores às de resto de mulheres, não mostraram diferenças significativas no desfecho gestacional. Essas evidências sugerem que a amamentação durante a gravidez normal não aumenta a chance de resultados maternos e neonatos desfavoráveis (3).

Se o sexo está liberado durante a gestação, não existe nenhuma razão lógica para impedir a amamentação. Em casos que há ameaça de parto prematuro, onde o corpo da mulher tem um ambiente propício para o trabalho de parto antes da hora adequada, até a relação sexual é contraindicada, e nesse casos também pode ser indicada a interrupção da  lactação, e mesmo nestes casos pode ser feito uma interrupção que seja gentil para a dupla mãe – filho mais velho. Os dados atualmente disponíveis não suportam a rotina de desencorajar ou contraindicar a amamentação durante a gravidez normal (4, 5).

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Uma mãe tem toda razão de evitar desmamar o filho mais velho durante a gravidez. O filho que está sendo amamentado ganha com o leite materno, o qual dá reforços à nutrição, ao sistema imunológico da criança e auxilia no equilíbrio emocional da dupla. Contudo, não é raro as crianças interromperem a amamentação espontaneamente quando a mãe engravida. O desmame pode ocorrer pela diminuição da produção de leite, alteração no gosto do leite (mais salgado, por maior conteúdo de sódio e menor concentração de lactose), perda do colo com o avanço da gravidez , aumento da sensibilidade do seio durante a gravidez e cansaço materno, pelas alterações hormonais que costumam causar sonolência principalmente no início da gestação.

É importante também deixar bem claro que amamentação não vai roubar os nutrientes do feto. A mulher é capaz de comer o suficiente para o feto, sua produção de leite e ela mesma. Uma dieta adequada e bem balanceada é suficiente para cobrir a maioria das necessidades de mulheres que estão amamentando grávidas. Mulheres que previamente apresentavam algum nível de desnutrição podem ter dificuldades, nesses casos o mais indicado é ter orientação profissional, no possível nutricionista materno infantil.  Estando bem nutrida tem poucas razões para  se preocupar. Acompanhamento pré-natal adequado é a principal forma de prevenção de qualquer problema.

Use o bom senso, ouça o que o seu corpo está  lhe dizendo. Você precisa estar consciente de suas possibilidades e ler as sinais do seu corpo enquanto cuida do seu filho e da sua gravidez. Os hormônios da gravidez podem lhe causar desconfortos durante a amamentação. Pode doer, não sempre, mas para a maioria das mulheres a amamentação na gravidez provoca algum desconforto, que pode ser mais forte numa fase da gravidez do que em outra. Também pode se sentir agitada, querendo de forma consciente amamentar, mas na hora da mamada sentir que quer fugir para as montanhas, e as ideias de desmame se tornam cada vez mais frequentes. Esse fenômeno é conhecido como perturbação da amamentação, e pode ser intensificado pelo estresse, o cansaço e a pressão social exercida para o desmame.

Após o nascimento do novo bebê a amamentação em tandem é uma possibilidade, mas caso você sinta que seria melhor o desmame do primeiro filho antes da chegada do segundo, o ideal é que o desmame seja conduzido num processo gradual e gentil, favorecendo o desenvolvimento da relação mãe filho em outras dimensões além da amamentação. Nesse caso o ideal é planejar que o fim da amamentação do primeiro filho aconteça pelo menos 4 semanas antes da chegada do irmão, dessa forma a criança tem tempo para se adaptar à sua nova realidade e estabilizar os novos hábitos onde a amamentação não estará mais presente.

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Texto original de Zioneth Garcia

*ultima edição em 30/05/2020

Referências


(1) Ishii, H. Does breastfeeding induce spontaneous abortion? J Obset Gynaecol Res 2009; 35(5): 864–868. https://doi.org/10.1111/j.1447-0756.2009.01072.x

(2) Kimura, T. et al. Expression of oxytocin receptor in human pregnant myometrium. Endocrinology 1996; 137: 780–785. DOI: 10.1210/endo.137.2.8593830

(3) Madarshahian, F. and Hassanabadi, M. A Comparative study of breastfeeding during pregnancy: Impact on maternal and newborn outcomes. J Nursing Research 2012; 20(1): 74–80. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22333968/

(4)Cetin, I., Assandro, P., Massari, M., Sagone, A., Gennaretti, R., Donzelli, G., … Davanzo, R. (2014). Breastfeeding during Pregnancy: Position Paper of the Italian Society of Perinatal Medicine and the Task Force on Breastfeeding, Ministry of Health, Italy. Journal of Human Lactation, 30(1), 20–27. https://doi.org/10.1177/0890334413514294

(5) Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança : aleitamento materno e alimentação complementar / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2015. 184 p. : il. – (Cadernos de Atenção Básica ; n. 23). Pag 69.
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_crianca_aleitamento_materno_cab23.pdf

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