A melatonina está sendo oferecida como a solução mágica para quem tem problemas de insônia, muitos pais e mães estão se iludindo, achando que essa seria a solução de seus problemas de sono noturno. Mas cuidado! Problemas de sono são muito mais complexos que a simples falta de uma substancia no organismo da criança.
A melatonina é um hormônio sintetizado pela glândula pineal, está envolvida em funções imunomodulatórias, antiinflamatórias, antitumorais, antioxidantes, e cronobióticas. Sua secreção ocorre à noite, estando relacionada com o sono, redução da temperatura corporal e outros eventos noturnos. Tem sua secreção controlada por sistema endógeno sincronizado com o ambiente externo (luz/dia). Os níveis orgânicos de melatonina são altos quando está escuro, e baixos no claro. A secreção natural de melatonina diminui com a idade e influência o ritmo sazonal e circadiano, sobre o ciclo sono-vigília e sobre a reprodução. Apresenta um padrão de secreção dia-noite, sensível a luminosidade, tendo um pico de produção elevada no início da noite e queda no final.

A secreção da melatonina é regulada por uma via neural complexa que começa na retina e nervo ótico, e conecta o núcleo supraquiasmático do hipotálamo à glândula pineal. Sob circunstâncias naturais de um ciclo claro-escuro ocorre uma produção rítmica circadiana de melatonina. A exposição a luminosidade (luz brilhante) é suficiente para suprimir a síntese e degradar os níveis de melatonina presentes no organismo. Evidências clínicas e experimentais mostram que diversos estados biológicos incluindo o humor podem ser influenciados pela melatonina.
Sua principal função em mamíferos é a de mediar sinais de escuridão, traduzindo informações sobre a duração da noite, com possíveis implicações no controle da ritmicidade circadiana e da sazonabilidade. A melatonina funciona como indutor do sono e estudos recentes sugerem que ela age mais como um agente que prepara o indivíduo para o sono talvez sinalizando para uma redução da temperatura corporal. Nesse sentido, ela atuaria através de suas propriedades cronobióticas (organização da resposta aos ciclos claro/escuro). Uma metanálise recente mostrou que a melatonina não altera substancialmente as medidas do sono reforçando o conceito anterior.

A melatonina tem seu uso estabelecido na clínica médica no tratamento de alguns distúrbios do sono como insônia por fase retardada, ciclo vigília-sono com períodos diferentes de 24h, latência prolongada para o sono, fragmentação do sono, distúrbios comportamentais do sono REM, correções do sono do idoso, dessincronização entre o ciclo vigília-sono e o dia e a noite, como observado com frequência em alguns tipos de cegueira (pré-quiasmáticas). Além disso, por ser um importante agente regulador do ciclo vigília-sono e também como um agente antioxidante, antiamiloidogênico, neurotrófico e neuroplástico, é usado como um coadjuvante terapêutico em doenças neurológicas e degenerativas (como doenças do espectro do autismo, síndrome de déficit de atenção e hiperatividade, Smith- Magenis, etc) que resultam em distúrbios do sono e dos ritmos biológicos circadianos. Particularmente, em relação a esses últimos, a melatonina é vista como um poderoso cronobiótico, isto é, um agente capaz de sincronizar o ciclo circadiano de muitas funções do organismo. Por isso tem, também, sido usada na correção dos distúrbios causados pelo “jet-lag” (mudança de fuso horário) .
Estudos mostram que a melatonina é uma substância de distribuição geral no organismo e de efeitos órgão e espécie específicos. Portanto, apesar de muito ter-se propagado sobre a sua utilidade terapêutica, deve-se considerar que suas propriedades e aplicações devem ser tomadas com cautela, já que seu mecanismo exato de ação ainda é desconhecido, e as consequências de seu uso em longo prazo são incertas. Vale a pena afirmar que existem diversas condições associadas ao sono em que a melatonina apresenta um benefício terapêutico largamente comprovado. Na Europa e nos Estados Unidos, a melatonina ainda é tratada como um suplemento alimentar e as preparações terapêuticas não passam pelo controle de qualidade a que os medicamentos estão sujeitos.
Melatonina usada em crianças pequenas
Uma revisão sistemática publicada em 2026 avaliou as evidencias sobre eficácia e segurança do uso da melatonina em crianças pequenas , nela foram validados os dados de 19 artigos publicados desde o ano 2000, incluindo ensaios clínicos com 167 crianças pequenas de 2 semanas a 2 anos de vida. A segurança é uma grande preocupação, os estudos documentaram aumentos nas práticas de prescrição, uso prolongado e superdosagens, especialmente na última década. Quanto à eficácia, os ensaios clínicos forneceram evidências de melhora no início do sono em crianças pequenas com condições neurológicas (por exemplo, transtorno do espectro autista), com poucos eventos adversos. No entanto, dados sobre desfechos a longo prazo para outros comportamentos e desfechos de saúde estavam ausentes, e dados de eficácia não estavam disponíveis para crianças com desenvolvimento típico. Vale ressaltar que está revisão considerou a qualidade metodológica dos estudos incluídos ruim em 3 estudos, razoável em 9 e boa em 6. Esses resultados sugerem um aumento global nas prescrições sem dados de eficácia sobre o uso em crianças com desenvolvimento típico, ressaltando a necessidade de identificar estratégias para prevenir e reduzir o uso de melatonina em crianças pequenas, bem como para melhorar a adesão dos pediatras aos padrões de prática baseados em evidências (Kracht CL, Bolamperti G, Breeden R, et al. 2026).
No Brasil , o registro sanitário na ANVISA da melatonina é para a formulação de suplementos alimentares, existe desde 14 de outubro de 2022, e sugere que seu uso seja destinado exclusivamente a pessoas com idade igual ou maior que 19 anos e para o consumo diário máximo de 0,21 mg (veja aqui )
Gostaria deixar um Alerta especial sobre o uso da Melatonina sintética nos problemas de sono . A comercialização e uso da melatonina através de diversos sites, seu fácil acesso através de internet, sem a necessidade de prescrição médica e a falta de regulação pela anvisa, tem deixado em alerta os especialistas que tratam distúrbios de sono, o uso sem acompanhamento medico adequado aumenta os riscos de superdosagem, colocando a saude de crianças em perigo.
Antes de partir para o uso de Melatonina, é importante esgotar todas as ferramentas comportamentais, realizando a higiene de sono adequada, isto é: organizar a rotina de atividades, sono diurno, controle de telas, refeições e a identificação com devido controle de fatores de desregulação sensorial e emocional. Vale lembrar que a melatonina é uma substância naturalmente produzida pelo organismo, mas não é única envolvida no controle dos ciclos de sono/vigília, ela não é sonífero.
O uso de melatonina deve ser SEMPRE acompanhado por profissionais, pediatra ou neuropediatra devem estar cientes do uso para ajustar a doses ao tamanho/ idade da criança, sem deixar de lado a orientação para a higiene de sono e tratamento correto de alterações clínicas que podem levar a dificuldades de sono em qualquer idade.
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Acompanhamento profissional para os problemas de sono das crianças
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Texto de Zioneth Garcia atualizado jan/2026
Referências
Kracht CL, Bolamperti G, Breeden R, et al. Melatonin Use in Young Children: A Systematic Review. JAMA Netw Open. 2026; 9(1):e2551958. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.51958 . Disponível aqui
Sousa Neto JA, Castro BF. Melatonin, biological rhythms and sleep – a review of the literature. Rev Bras Neurol. 49(2):57-71, 2013. Disponível aqui
Alóe F et al. Sleep-wake cycle mechanisms. Rev Bras Psiquiatr. 2005;27(Supl I):33-9. Disponível aqui
Koch, B.C.P., Nagtegaal, J.E., Kerkhof, G.A., & ter Wee, P.M. (2009). Circadian sleep-wake rhythm disturbances in end-stage renal disease. Nature Reviews Nephrology, 5, 407-416.
POSICIONAMENTO DA SBEM SOBRE A MELATONINA. Disponível aqui
