Educar com afeto não é privilégio é um direito

Há uns 4 anos atrás escutei de uma mulher que a criação com apego, criar com carinho sem uso de violência era um privilegio. Recentemente ouvi novamente um comentário nesse sentido, e ficou claro que há alguma coisa errada, alguma mensagem não está sendo transmitida adequadamente. Está se confundindo criação com apego com uma receita pronta que você compra, recebendo uma caixinha com o combo parto domiciliar, sling, cama compartilhada, banho de balde, amamentação exclusiva e com desmamem natural. Essas práticas geralmente associadas à criação com apego, não a definem na sua essência. Criação com apego e sobre nos relacionar com nossos filhos com respeito e amor.

Temos que ser sinceros, houve um boom comercial ao redor do tema criação com a pego, disciplina positiva (marca registrada alias) , educação sem violência. Houve uma elitização dos movimentos ativistas em geral, desde os movimentos de humanização ao parto, amamentação, alimentação saudável, até educação sem violência. Essa elitização fez parecer que é preciso pagar bem, quase penhoram um rim para fazer um curso de gestantes e ter um parto respeitoso, conseguir a tão sonhada amamentação exclusiva pagando mil e uma sessões de laser, e fazer uma maratona de leitura , palestras e cursos para chegar na “verdadeira” criação com apego. Nem é preciso aprofundar o que significa elitização, você já pode imaginar quem ficou de fora desse baile.

Mas e se eu contar que na realidade você não precisa renda enorme, nem casarão, nem carrão, não precisa nem mesmo salário fixo. Também não precisa ter gestado, ter parido e amamentado. Para criar filhos com vínculo afetivo positivo (a tal de criação com apego) basta ter filhos, amar e querer oferecer para eles o melhor de você mesmo, basta estar disposto aprender e crescer junto deles. Basta de seu tempo, sua disposição de educar e formar seres humanos e bons cidadãos, mesmo no pouco tempo que lhe sobra depois de 12 hs de trabalho, mesmo no meio da correria do dia dia.

Foto por Wendy Wei em Pexels.com

Criar com apego é entender que eles, nossos filhos, e nos, seus pais, estamos crescendo junto, aprendendo com nossos erros, e nos tornando cada vez mais humanos através do auto conhecimento e o reconhecimento do outro. Conheço famílias de todas as classes sociais, que optam por quebrar o ciclo de violência com seus filhos, pessoas maravilhosas, que só procuram uma coisa: informação e acolhimento. Então você aí que acha que criar com apego (prefiro criação com vínculo positivo) é privilégio, eu pergunto: privilégio de quem? De quem tem acesso a informação? Onde diz que para tratar os filhos com amor precisa devorar livros, sites, ter acesso a internet, fazer cursos mil ou até mesmo saber ler? Se criar com vínculo positivo, baseado no amor é privilégio, então para os não privilegiados sobra o quê? As pancadas, o cinto, o autoritarismo? Assim como para ir acostumando com a vida? Com o policial, a escola, o presídio?

Nosso mundo precisa de empatia e acolhimento, precisamos com urgência re-ver nossos valores. Assumir que criar sem violência, tentando manter vínculo positivo com os filhos é privilégio, praticamente condena uma grande parte da população a continuar o ciclo de violência. Envia a mensagem a quem se considera não privilegiado (por qualquer razão) que melhor nem tentar, já que isso é coisa de privilegiado, e não lhe pertence.

Muitas mães se sentem massacradas por ter feito escolha diferentes desse figurino, por não receberem informações de forma oportuna ou correta. Muitas mulheres sendo julgadas por não poderem estar em tempo integral com os filhos. Falta de informação todas as famílias sofrem, não é tão seletiva assim como se acredita. Assim como a mãe que mora na favela acredita que bater concerta o filho, a que mora no prédio de luxo acredita que deixando chorar no berço vai “ensinar” o filho dormir “bem”. Todas tem esse problema de má orientação profissional. Mas não podemos generalizar, e demonizar todos os profissionais que atuam com a primeira infância. Existem muitos que são muito bons.

Foto por nappy em Pexels.com

Há uma visão destorcida das coisas, infelizmente . Essa distorção parte justamente dos mesmos círculos que falam em privilégio. Tomaram criação com apego (assim como a humanização do parto) como uma apostila para seguir a risca, e não é assim. Quem repete que criação com apego é privilégio, está entendendo o bagulho errado. Criar filhos não tem manual, cada um trilha o próprio caminho, mesmo nas piores circunstâncias da vida, amor é possível. Quem vê que criar com apego é coisa de privilegiados, nem tenta, desiste sem tentar ao menos entender o que significa criar sem uso de violência, respeitar o desenvolvimento infantil e a necessidade de contato e afeto para o desenvolvimento emocional de nossos filhos (a essência da criação com apego). Colocar a criação com apego num patamar alcançável apenas por um pequeno grupo de privilegiados, econômica e intelectualmente, apenas contribui para aprofundar a desigualdade. Em últimas o discurso que coloca a educação sem violência como privilégio acaba só legitimando o uso de violência.

A família que recebe orientação do pediatra para manter aleitamento materno exclusivo não é privilegiada tem seu direito respeitado. Nessa mesma linha, a família que recebe orientação para fazer introdução de alimentos de forma precoce ou deixar o filho chorar porque está “manipulando-a” por um profissional, não está sendo desprivilegiada, estão tendo seus direitos desrespeitado. Pagar uma equipe de parto para chamar de sua é privilegio, ter garantia de um parto com assistência humanizada no SUS é direito. Ter o filho estudando em colégio bilíngue é privilegio, o filho aprender a ler e escrever é direito. Comprar um livro para ler sobre educação e técnicas é privilegio . Ter consciência das próprias limitações e controlar as emoções para não descontar violentamente na criança, é um direito da criança (e nenhum livro ensina autocontrole).

Que tal se dizemos que escolher o caminho da autocrítica pode levar a derrubar correntes. Se dizemos que em casa não precisa ser igual ao presídio, que tal falar de direitos. É um direito das crianças viver em um ambiente afetuoso e sem violência, e um direito dos país , das mães, e educadores, acesso à informação. Receber orientação para parir, adoptar, amamentar, educar, não é privilégio, é direito. Ao falarmos de direitos temos a opção e escolha cidadã de ir atrás deles.

Foto por Juan Pablo Serrano Arenas em Pexels.com

Criação, educação se trata de escolhas. Para quebrar o paradigma de educação violenta só é preciso alguém que bata essa porta. Pode ser uma avó arrependida de ter batido nos seus filhos, uma professora da escolinha, pode ser a mãe de um coleguinha, pode ser a vizinha de porta, pode ser uma estranha no ônibus que acolheu um choro com amor. Você que está lendo esse texto, pode ser essa pessoa. Porém, também é preciso alguém disposto abrir essa porta, que só abre do lado de dentro. Igual que falamos de direito ao atendimento humanizado, crianças tem direito à educação sem violência, e nos todos, como cidadãos do mundo temos a obrigação de lhes garantir esse direito.

Não podemos esquecer a essência da criação com apego, a que realmente importa: respeito e amor.

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*Texto original de Zioneth Garcia.

Encontre mais textos sobre educação sem violência aqui

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