10 situações memoráveis envolvendo vovós durante os atendimentos

Os avós vivem no seu tempo, muitos têm vagas lembranças de como foi criar os seus filhos, alguns esperam que os seus filhos repitam com seus netos o mesmos que eles fizeram na sua época de pais, outros ficam admirados com o tanto de novas informações que há atualmente. Alguns dão palpite, outros aconselham, outros mandam como se os pais fossem ainda crianças, e há aqueles que fazem até birra para tentar que as coisas sejam do seu jeito. A seguir conto algumas situações que aconteceram durante os acompanhamentos, envolvendo os avós, que ficaram nas minhas lembranças.

1- A avó indignada porque a nora não deu chupeta ao bebê recém nascido. Numa consultoria de amamentação, fui recebida por uma senhorinha muito meiga, ela abriu a porta para mim, e esteve atenta ao atendimento da dupla mãe- recém nascido no começo. Num certo ponto da consulta, como de costume perguntei se tinham oferecido chupeta, e a senhorinha meiga se transformou numa fera. Acusando a nora de “privar” o neto da chupeta, quando todos os seus filhos tinham usado, e até o pai dele (filho da senhora) tinha largado com quase 4 anos. Pois bem, expliquei porque a nora tinha toda a razão em não querer dar chupeta e dei um bela aula de confusão de bicos. A senhora não teve muita opção senão acatar a decisão da nora. Após um tempo, se retirou e não a vi mais pelo resto do atendimento. Alguns dias depois o pai me enviou mensagem agradecendo pela aula, porque já estava cansado de mediar a briga pela chupeta entre a mãe e a esposa. Tinham até doado as chupetas que a avó tinha comprado para o neto.  

2- A avó que deu chupeta escondido da mãe. Esse foi um caso cabeludo, a mãe amamentava um bebê de 7 meses, e tinha começado trabalhar de tarde, deixando o bebê com a avó. Todo ia bem até que o bebê começou mostrar um comportamento compatível com confusão de bicos, mordendo o seio da mãe e empurrando o mamilo com a língua, fazendo uma pega fechada. Tentamos várias coisas, descartamos quase todas a hipóteses, até chegarmos ao período com a avó. Ela contou que a avó sugeriu introduzir, a ma~e não concordou e o tema morreu ai. Um dia a mãe chegou mais cedo do trabalho e esqueceu avisar a avó, para sua surpresa, encontrou o bebê dormindo com a chupeta na boca. A avó levava e trazia todos os dia a chupeta e mamadeira dentro da bolsa. Tinha dado a chupeta escondido da filha. Houve uma crise familiar que levou a mãe optar por deixar o filho na escolinha meio período, sem chupeta.

Foto por Juan Pablo Serrano Arenas em Pexels.com

3- Os avós advogando pela criança para a mãe dar o seio. A família morava compartilhado terreno com a casa dos avós paternos, o marido trabalhava o dia todo e a criança de 2 anos, passava o dia entre as casas dos avós e dos pais. Mesmo assim, toda vez que chorava, por qualquer razão, algum dos avós a pegava no colo e a trazia para a mãe dar o seio, e se a mãe negava. Ficavam fazendo a criança de coitadinha até a mãe muito irritada cedia.  A mãe estava  tentando controlar a demanda do seio, pois estava cansada de amamentar e tentando iniciar um processo de desmame gradual. Mas a atitude dos avós não estava ajudando. Chegando ao ponto de não deixar a criança ir à casa dos avós, pois sentia que tinha mais controle do seio com a criança do lado o tempo todo. No meio da consulta ela me pediu para trazer a avó para acompanhar a conversa. A estratégia de controle da demanda no fim precisou abraçar o tempo na casa dos avós. No fim deu tudo certo. 

4- O avô que passeava de bicicleta todas as tardes. Foi um caso no qual a rotina da família tinha um o passeio de bicicleta do bebê com o avô todas as tardes no mesmo horário. Porém, com as mudanças de rotina normais do crescimento, o avô estava se sentindo rejeitado e triste, pois o bebê começou fazer sonecas nesse horário, o que começou trazer atrito à relação pai-filha, ele achava que a filha não queria que o bebê passeasse com o avô e o forçava dormir. Foi preciso persuadir o vovô (que tinha uma rotina muito rígida) mudar o horário do passeio para que pudesse ser aproveitado pela criança. A mãe me pediu que enviasse um audio explicando para o vovô porque era necessário mudar o horário do passeio por algumas semanas.Um pouco relutante, aceitou testar um dia, vu que funcionou e a criança desfrutou o passeio como antes. Se convenceu e aceitou trocar definitivamente o horário. 

Foto por freestocks.org em Pexels.com

5- A avó que ajudava segurando o bebê no colo para a mãe recém parida limpar da casa. Essa é épica. A senhora chegou uma semana antes do parto, mas foi uma semana tensa para a gestante, uma vez que foi criticada pela forma como “não cuidava” do marido. Quando o bebê nasceu, o cenário só piorou, na consulta de amamentação (3 dias após o parto)  fui recebida pelo pai no meio de uma zona de guerra, de um lado uma puérpera sensível e do outro a mãe cuidando do filhinho adulto. A amamentação estava indo bem, mas a mãe não saia do quarto, para não topar com a sogra, enquanto o pai estava em casa ele levava comida, e cuidava das coisas da puérpera. Quando o pai voltou trabalhar, a puérpera se sentiu abandonada, sua sogra não a ajudava com suas coisas nem com as coisas da casa. A ajuda que oferecia era segurar o bebê no colo para que a puérpera fosse lavar suas roupas, fazer sua comida e limpar sua casa. Foi então que a amamentação começou a dar problemas, o bebê chorava muito, e a recém parida passou a não sair do quarto o dia inteiro, passar longos períodos sem comer e chorar muito também. O pai me pediu para retornar, e após uma conversa bem sincera, o casal acordou que a vovó voltaria para sua casa e eles iriam contratar uma pessoa para auxiliar com as tarefas domésticas durante o dia. No fim, a vovó ficou sentida, mas acabou dando tudo certo para a família, e especialmente para dupla mãe- bebê



6-A avó que dava jantar no passeio final da tarde, não contava para ninguém . Os pais achavam que a criança de 2 anos, não jantava bem antes de dormir, e acabavam dando bastante leite durante a noite, acreditando que não estava se alimentando. Ela ficava no final da tarde com a avó, quem a pegava da escolinha e levava passear até a chegada dos pais. Analisando a rotina, percebi que o último lanche da escola era muito longe do jantar, a criança devia estar com fome na saída da escola, mas por alguma razão não comia com os pais . Um dia que os pais pegaram a criança na escolinha, perceberam que realmente saia com fome, ao oferecer um lanche na padaria perto de casa, descobriram que ambas, avó e neta, tinham por costume fazer uma paradinha ali nessa mesma padaria, todos os dias, ambas eram clientes conhecidas da padaria, a atendente as entregou. Ao falar com a avó, entenderam porque o jantar não acontecia, nessa paradinha rolava um mega lanche, com direito a quichés, bolo, frutas, praticamente um jantar. Então no lugar de proibir esse momento, a família se organizou para deixar o jantar por conta da vovó e depois fazer apenas um lanche antes de ir pra cama. A vovó passou fazer relatórios diários sobre o que a criança tinha comido. Saber que a criança realmente estava se alimentando, permitiu que os pais retirassem o leite noturno com segurança. 

Foto por Pixabay em Pexels.com

7- A avó que ficou ofendida porque não fiz visita para ela. Num final de tarde fui acionada para atender uma recém mãe e seu bebê que estavam com dificuldades de amamentação, combinamos de nos encontrar 19:30, e quando já estava entrando no prédio, a mãe me mandou mensagem pedindo para chegar logo, já que o bebê estava desesperado para mamar. Então o pai desceu me encontrar e subimos correndo, quando cheguei no apartamento fui direto à mãe, fiquei com ela até umas 22 h, ninguém além do pai apareceu por ai. Após finalizar o atendimento, cansada com duas crianças esperando pela mamãe para dormir, só deu tempo de dar boa noite e sair. Depois de uns meses, recebi um retorno da mãe, falando que a sogra tinha ficado muito ofendida porque não fui conversar com ela. Fazer o quê? 

8-A avó racista. Aconteceu há alguns anos. Uma gestante me contatou para lhe acompanhar nos primeiros dias com a amamentação, em princípio o atendimento seria no seu apartamento, mas de última hora fui avisada que ela estaria na casa da sua mãe, então fui atender ela no novo endereço. A avó me abre a porta, me olha de cima abaixo e avisa que eu deveria entrar pela entrada de servicio. Pensei que era alguma coisa de higiene, não dei importância e entrei pelos fundos, chegando primeiro na cozinha. Me apresentei à empregada, devidamente uniformizada, e perguntei pela mãe. Mais do que pronto ela me explicou que seria recebida na sala de visitas. Encontrei a mãe com o bebê e a avó sentadas na sala. A mãe começou explicando que tinha decidido passar as primeiras semanas na casa da mãe, já que no seu apartamento estaria sozinha. Fiz toda a anamnese e perguntei se era nesse local que ela costumava amamentar. Ela preferia amamentar no seu quarto ou na sala íntima, onde estava a TV e a família passava maior parte do tempo, então a convidei ir até lá, mas a avó imediatamente impediu, num tom de poucos amigos, e visivelmente incomodada de eu estar ai, diz que o atendimento seria aí. Como não tinha mais opção segui o atendimento. Solicitei gelo para uma compressa, e a mulher da cozinha trouxe. Num descuido, enquanto ajudava a mãe com o bebê, a compressa de gelo ficou sobre o sofá, molhou um pouco, o que foi terrível, a avó ficou irritadíssima, aos gritos chamou a funcionária e começou vociferar comentários racistas para ela (que era da minha cor), obviamente com a intenção que eu ouvisse:  “Só pode ser dessa cor” ,  “É que vocês não sabem fazer nada certo” e outros que já nem lembro mais. Só sei dizer que fiquei tão incomodada com tudo aquilo que encerrei o atendimento o mais rápido possível e nunca mais coloquei os pés naquela casa. 

Foto por cottonbro em Pexels.com

9- A avó que fez ceia de natal inclusiva para apoiar a dieta restritiva que a filha fazia para amamentar. Não foi bem num atendimento, mas um contato que recebi através de um texto que saiu próximo do natal, aqui no site que trata sobre alergia e inclusão. A vovó estava preocupada porque pela primeira vez receberia seu neto no natal, um bebê de 4 meses, diagnosticado com alergia às proteínas do leite. Ela estava muito preocupada sobre os traços, a filha tinha avisado que levaria marmita de casa para comer no jantar, e isso estava partindo o coração da vovó. Ela me procurou no whatsapp, me contou toda a história e me pediu por favor ajuda para encontrar receitas que a filha pudesse comer, que ela faria para todos da família comerem juntos. Expliquei tudo que sei sobre alergia alimentar, inclusive sobre o risco dos traços, mandei vários sites com receitas, compartilhe uma receita de bolo de frutas cristalizadas que fazia na minha época de dieta restritiva, mandei alguns livros em PDF, enfim, deixei a vovó satisfeita. No natal ela me mandou um feliz natal, com uma fotinho da ceia que fez com toda a família à mesa. Confesso que fiquei com inveja daquela mãe.

10- A avó que me fez marmita de bolo. Fiz um atendimento de tarde, e se estendeu um pouco além do que esperava, foi um bate papo bem gostoso com a mãe e avó que estava ali cuidando da casa e da puérpera. Enquanto atendia a mãe na sala, a vovó estava fazendo bolo na cozinha de nosso lado. Estava quase na hora de pegar meus filhos na escola, então quando encerrei o atendimento, ia sair correndo, mas a vovó me convidou à mesa para tomar um cafezinho, aceitei o cafezinho, mas lhe expliquei que precisava pegar meus filhos na escola, e que por isso não poderia ficar comer aquele bolo que parecia delicioso, mas que agradecia muito o gesto, e não sei de onde ela apareceu com  um pote descartável, colocou um pedaço enorme do bolo dentro, e me entregou.  Me levou até a porta do prédio , me deu um abraço e agradeceu por ter ajudado a filha e o neto. Me diz que tinha percebido como o olhar de sua filha tinha se iluminado quando finalmente conseguiu dar de mamar sem dor. Nossa! isso foi tão intenso, que até hoje me emociono de lembrar.  

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Texto original de Zioneth Garcia

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