O prazer de amamentar é determinante para o sucesso

A amamentação é uma característica que herdamos e compartilhamos com os mamíferos. Apesar de termos uma série de evidências sobre os benefícios da amamentação  para nossos bebês humanos e suas mães, as dificuldades aparecem e de alguma forma milhões de duplas mãe e bebê perdem a amamentação precocemente. Apesar das iniciativas para promover a lactância materna terem sido estabelecidas há 25 anos, as taxas globais de amamentação permanecem bem abaixo das metas internacionais, e o compromisso com a amamentação, em termos de política e investimento, está em um estado de fadiga. Para todos os países de baixa e média renda com dados, as taxas de amamentação exclusiva aumentaram de 25% em 1993 para 37% em 2013; entre os 20% mais ricos em cada país, a amamentação aumentou de 16% para 36%, enquanto os 20% mais pobres seguiram a tendência geral. A amamentação continuada até 12- 15 meses diminuiu de 76% para 73% globalmente, redução provocada principalmente pela redução na prevalência em populações pobres (1).

Vantagens reconhecidas da amamentação(2)

  • A amamentação tem sido apontado como um fator protetor frente a obesidade, diabetes, hipertensão e câncer. Não apenas do bebê, mas também da sua mãe. 
  • Através do leite materno o bebê recebe estímulo constante para seu sistema imunológico, recebendo agentes imunológicos ativos, imunoglobulinas e microrganismos que ajudam regular e reforçar a resposta aos patógenos do ambiente.
  • A sucção, deglutição e respiração, funções primárias do bebê, são desenvolvidas através de uma correta forma de amamentação. No ato de amamentar, a criança estimula um exercício físico contínuo que propicia o desenvolvimento da musculatura e ossatura bucal, proporcionando o desenvolvimento facial harmônico.
  • A amamentação proporciona à criança uma respiração correta, mantendo uma boa relação entre as estruturas duras e moles do aparelho estomatognático e proporciona uma adequada postura de língua e vedamento de lábios. Além disso, associada ao mecanismo de sucção, desenvolve os órgãos fonoarticulatórios e a articulação dos sons das palavras, reduzindo a presença de maus hábitos orais e também de patologias fonoaudiológica.
  • O leite materno muda sua composição conforme as necessidades energéticas e saúde do bebê. Sem importar o estado nutricional da mãe, o leite materno em livre demanda oferece nutrição e hidratação completa até os 6 meses de idade, mantendo se como principal fonte nutricional até os 12 meses (complementado por alimentos) e continua sendo fonte importante de micronutrientes durante todo o período de amamentação prolongada.
  • A sucção oferece um mecanismo natural para regular o estresse do organismo, a composição variável do leite materno ao longo do dia estimula  a regulação dos ciclos circadianos e amadurecimento do sistema regulador de sono vigília (3).
  • Os aspectos psicológicos do aleitamento materno estão relacionados ao desenvolvimento da personalidade do indivíduo. As crianças que mamam no peito tendem a ser mais tranquilas e fáceis de socializar-se durante a infância.  
  • Maior tempo de aleitamento materno foi relacionado a um aumento no QI, mostrando que a amamentação influencia positivamente as taxas e escolaridade e sucesso econômico na vida adulta (4, 5). 

Se entendemos conscientemente as razões para amamentar e sua importância em nível populacional, porque parece tão difícil sustentar essa decisão a nível individual? porque para algumas mulheres pode ser tão desafiadora a amamentação? porque para muitas mulheres o desmame chega precocemente? Como a amamentação conseguiu ser mantida dentro de nossa história evolutiva por tanto tempo? qual o mecanismo para que as mães mamíferas continuem a amamentar apesar das dificuldades?  A resposta pode estar justamente na nossa herança evolutiva, e na psicofisiologia da amamentação: o prazer de amamentar é muito mais determinante a nível individual do que todas as evidências científicas disponíveis (6). O mecanismo regulador da produção de leite materno está diretamente relacionado com os hormônios que regulam o prazer, mas especificamente a ocitocina, o mesmo hormônio produzido durante o orgasmo sexual, que também é produzido durante a ejeção do leite materno, ele ativa vias metabólicas que levam a sentir satisfação, prazer e amor (relacionadas com a secreção de serotonina, endorfinas e dopamina) . A fêmea de chimpanzé, a leoa ou a vaca no escolhe amamentar por que sabe que é o melhor para seu filhote, ela amamenta por um impulso biológico que a leva na procura do bem estar, e assim, mantêm a amamentação enquanto ela lhe oferece bem estar ou “prazer”. 

Para nós, mulheres, a amamentação é um híbrido biológico cultural. Além da influência de nossa história evolutiva, também temos uma forte influência do contexto social, econômico e cultural. O sucesso na amamentação não é responsabilidade apenas de uma mulher – a promoção da amamentação é uma responsabilidade coletiva da sociedade. Para amamentar com sucesso a mulher deve se sentir respaldada pela seu parceiro, sua família, sua comunidade e seu governo. O prazer de amamentar, que a natureza nos garante através dos mecanismos fisiológicos da lactância, nos é tirado pelo contexto socio-cultural. A concentração das tarefas de cuidado do lar e dos filhos sobre a figura materna, a volta ao trabalho durante o período de aleitamento materno exclusivo, a pressão social e econômica para as mulheres produzir economicamente independente da sua fase de vida, a discriminação sofrida em ambientes de trabalho quando a mulher se torna mãe, entre outros tantas situações que as mulheres devem enfrentar junto à maternidade. Nesse contexto, amamentar deixa de ser um prazer para a mulher e em começa correr alto risco de se perder.

Foto por Jonathan Borba em Pexels.com

Durante a semana mundial de amamentação vemos muitas informações sobre a importância da lactância materna, para as criança, as mulheres, a sociedade e o nosso planeta. Como de costume, muitas mães que por alguma razão interromperam a amamentação precocemente, que ainda não superaram tal desfeito, podem sentir ainda mais a dor da amamentação perdida. Para elas é importante dizer: não se culpem pela amamentação perdida, amamentar é responsabilidade de todos. Quando falta suporte emocional, econômico ou social, a amamentação deixa de ser um prazer, e começa ser uma preocupação, traz dor, se torna um sacrifício. Quando amamentar vira um fardo para a mulher-mãe, deixa de trazer satisfação, deixa de ser prazerosa o seu fim é inevitável. Para essas mulheres que sentem o final da amamentação precocemente, quero deixar uma voz de alento, um abraço caloroso. O amor de mãe não se mede com tempo de amamentação ou o tipo de leite que o bebê consome,  o vínculo afetivo entre mãe e bebê não se rompe com o final da amamentação, ele passa ser expressado de outras formas. O mesmo amor que vocês sonharam dar no seio, pode ser ofertado através do colo, olho no olho, carinho e atenção das necessidades do bebê, mesmo que isto seja satisfazendo sua fome com mamadeira.

Referências

1. Nigel C. Rollins et all. Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. The Lancet, v. 387, Jan 30, 2016. Tradução elaborada por Leila Posenato Garcia e Giovanny Vinícius Araújo de França disponível aqui

2. Leonardo dos Santos Antune et all.Amamentação natural como fonte de prevenção em saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 13(1):103-109, 2008

3. Jennifer Hahn-Holbrook et all. Human milk as “chrononutrition”: implications for child health and development. Pediatr Res 85, 936–942 (2019)

4. Ana L. M. Fonseca et all. Impact of breastfeeding on the intelligence quotient of eight-year-old children. J Pediatr (Rio J). 89(4):346−53, 2013

5. Cesar G Victora et all. Association between breastfeeding and intelligence, educational attainment, and income at 30 years of age: a prospective birth cohort study from Brazil. The Lancet Glob Health V 3: e199–205. 2015

6. Wilson de Mello e Talita de Mello. Cap 1: Anatomia e fisiologia da lactação. Em: Marcus Renato de Carvalho e Cristiane F Gomez. Amamentação bases científicas 4°edição. 2016. Ed. GEN.

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*Texto original de Zioneth Garcia .

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