Desabafo de uma mãe durante a pandemia

Hoje preciso fazer um desabafo. Vou reclamar da vida, porque preciso. Assim que se não quiser ler o desabafo, pode parar por aqui. Minha cabeça, meu coração precisa uma válvula para liberar pressão, e escrever nesse momento foi o melhor que me ocorreu fazer. Não espero ajuda, nem fórmulas para mudar a realidade, porque sei muito bem que várias coisas não dá para mudar. Hoje só quero desabafar mesmo, sentir que posso contar para alguém o que está passando pela minha cabeça e quem sabe receber um abraço, mesmo virtual.

Desde sexta estou tentando sentar escrever um texto sobre educação positiva que está quase pronto, o que falta é pouco mas preciso de alguns minutos de sossego para me concentrar e escrever, e simplesmente não consigo. Cada 15 min escuto um mãe, manhe, mami. Como vi num canal comédia esses dias, deixou de ser estresse, agora estou flertando com o colapso. E vejam bem, meus filhos são escolares, tomam banho,  se vestem, comem, sozinhos, mas a demanda está além do que meu corpo e minha mente está conseguindo suportar. Toda noite deito com um nó no pescoço, minhas costas doem, minha cabeça não para de planejar o dia seguinte, o sono demora chegar. Somos dois revirando na cama a noite para lá e para cá.

 

Estou em casa com meus filhos desde 16 de março, façam suas contas, eu prefiro nem contar os dias, estou vivendo um de cada vez. Tentando equilibrar trabalho, atividades escolares e tarefas domésticas. Me sinto SOBRECARREGADA! Apesar de diminuir significativamente a quantidade de atendimentos que faço ao mês, tento manter uma rotina dedicando 2 hs para meu trabalho de manhã e de noite, de tarde as crianças têm aulas online e atividades escolares, e no meio tempo disso tudo tem a prepararação de refeições, organizar casa, etc etc. Por mais que dividamos tarefas, parece que dois adultos não dão conta de casa , comida e duas crianças. 

Meu esposo está em home office, mas diferente de mim, ele precisa cumprir um horário fixo, em horário comercial. Meu escritório já não me pertence mais, virou seu lugar de trabalho, onde passa maior parte do dia, entre ligações e videoconferências. Agora divido a escrivania com minha filha maior, a que ela usa para estudar regularmente, no seu quarto. Para piorar, Paulo cursa sua segunda faculdade, a distância, e pelo menos 2 noites na semana está ausente, debruçado sobre apostilas e provas EAD. 

Nem sou tão exigente assim com as coisas de casa, desde sempre tenho me virado sozinha, a limpeza pesada apenas quando dá (e tenho vontade), e todo mundo tem que colaborar. A manutenção diária todo mundo tem sua tarefa, grande ou pequeno tem que meter mão na massa. Mas a simples labor de gerenciar cansa. Mãe ele não está fazendo, eu fiz mais…. eu fiz semana passada… amor cadê as esponjas novas, acabou o detergente? ….

Estou esgotada, com saudades de mim! Como queria ter novamente aqueles 30 minutos de glória após as crianças sair para escola com o pai, antes de começar o primeiro atendimento da tarde. Parece uma realidade tão distante. 

Amo meus filhos, mas queria ter apenas umas horinhas de sossego, sem escutar nenhum mãe e sem me preocupar pela calmaria suspeita que antecede a bagunça. Hoje estou mesmo cansada, a vontade é jogar tudo para o alto e escolher o que vou fazer. Mas até as tarefas de sobrevivência parecem que se multiplicaram, fazer feira virou uma maratona, compras no mercado então é uma atividade de alta periculosidade. 

Dia dia tento fazer o essencial, urgente e necessário, o que dá para adiar, será adiado, o que dá para delegar, estou delegando ao marido e filhos, e se não é urgente e mega necessário, esqueço. Não brigo mais pelas aulas, se querem fazer vão, se não querem não insisto, se o pai quiser tocar o barco nas aulas, que fique a vontade, preciso preservar a sanidade mental.  

Fico em casa hoje para poder ter um amanhã, mas a raiva e desesperança me invade toda vez que vejo os números de doentes e mortes apenas crescendo. Me sinto uma trouxa  quando vejo as pessoas na rua fazendo pouco caso das recomendações. É como se cada uma dessas pessoas que estão na rua sem necessidade, apenas por capricho, estivesse me roubando um dia da minha vida. 

Até quando teremos que seguir assim? Será que um dia vamos voltar ao que era antes? E quando voltar as aulas, como irá ser nossa nova vida?  Quando poderei ver minha mãe e meu pai novamente? e meus irmãos, minha cunhada, minha sobrinha? Quando poderei viajar de novo para meu país? Já faz dois anos que não vou, e não tenho nem ideia quando voltarei. 

Sei que tem casais com menos recursos, que tem mães solo, em piores condições que as minhas, e realmente me solidarizo com todas elas. Só me resta convidar todas nós, olhar com carinho para nos mesmas mulheres- mães, priorizar mais nossa saúde mental para dar conta da tarefa monumental que temos nas costas.

Precisando ajuda?

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Texto original de Zioneth Garcia

2 comentários

  1. Querida Zioneth, compadeço-me com seu desabafo. Esta semana venho sentindo exatamente cada palavra que descreveu, e olha que tenho apensa um filho, que fará 2 anos esse mês. Mas adiciono ao seu desabafo uma questão que vêm me inquietando muito: a da diferença de gênero dentro de casa. Como encabeçar, em termos de energia, além de todas as lutas diárias que você bem descreveu (como se cada dia tivéssemos que “matar um leão”), a luta por igualdade domética, e aí inclui-se o pensar/planejar/organizar o dia seguinte. É extremamente exaustivo termos que realizar esse papel, simplesmente porque o outro não realiza. E alguém tem que assumir, senão os prejudicados são os menos fortes, os mais vulneráveis, os filhos. Assim, sinto-me extremamente sobrecarregada, madrugadas sem dormir, pois é a unica hora que consigo trabalhar, e ainda tenho que parar para dar mamá pro bebê que chama a mãe mesmo com o pai dormindo na mesma cama. Inicia-se o dia, e eu não paro da hora que “acordo” até a hora que vou dormir… Não tenho tempo de assistir série, e mal consigo responder minhas mensagens do WhasApp durante o dia. Por isso, me compadeço do seu desabafo, faço dele meu desabafo, para que ele se torne um grito de luta, onde unidas, nós mulheres, possamos criar filhos e filhas que não sofram essa angústia/ansiedade/fardo hereditário que carregamos ainda, talvez pelo machismo encruado na nossa cultura e educação ocidental/latina. É urgente pensarmos numa estratégia de educarmos nossos filhos para igualdade de gênero.

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