Amamentação em casos de infecção materna

O leite materno é um composto vivo, através dele a mãe compartilha não só nutrientes, mas agentes que atuam como imunomoduladores do organismo do bebê. No leite materno podemos encontrar pró-bióticos (micro-organismos vivos), pré-bióticos (substâncias que favorecem o crescimento desses micro-organismos vivos, oligossacarídeos p.e), enzimas (ferritinas, lisozimas), imunoglobulinas (IgA, IgA secretora) e agentes patogênicos (vírus e bactérias). 

A composição de nutrientes e bioativos do leite materno muda constantemente em resposta à sucção e frequência de mamadas do bebê, assim como a saúde da sua mãe. Em casos de infecção materna, por vírus ou bactérias, a amamentação pode atuar como uma proteção para o lactente, lhe fornecendo estimulo imunológico para prevenir uma possível infecção. Porém, em alguns casos também pode ser uma via de transmissão de doenças efetiva. 

Resfriado comum, mastites, candidíases, infecção urinária ou gastrointestinal, não tem qualquer indicação de suspender a lactância, o tratamento em geral é completamente compatível com a lactância materna. 

Foto por Wendy Wei em Pexels.com

Quando se decide se a amamentação pode ser mantida ou deve ser suspensa durante o processo infeccioso, é importante considerar o tempo de incubação da doença, sua principal via de transmissão, o estágio no qual foi feito o diagnóstico, a idade do bebê e condições socioeconômicas da família. Em muitos casos, a doença é diagnosticada quando a fase de maior transmissão já passou, com o que o bebê já foi exposto à doença, tem maior probabilidade de desenvolver a mesma, e pode correr mais riscos se tem suspensa a amamentação. É o caso da caxumba, rubéola e varicela, doenças virais que são diagnosticadas apenas com a aparição dos sintomas, que em geral acontece depois da fase de maior risco de contágio, com o que separar a mãe e bebê gera mais riscos à saúde do lactante, e traumas para a dupla do que a manutenção da amamentação. No caso da Varicela, se a infecção materna foi detectada 5 dias antes ou 3 dias após o parto a sugestão é a interrupção temporária da lactância, para prevenir um contagio do recém nascido que pode ser tornar um quadro grave.

Doenças transmitidas por mosquitos, como Zika, Dengue ou Chikungunya, ainda não tiveram confirmação de transmissão via leite materno, se estima que é mais provável o bebê ter contágio por ser exposto às picadas do inseto do que pela transmissão via leite materno. Existem relatos de Zika vírus e chikungunya encontrado no leite materno, porém, o passo pelo trato digestivo pode inabilita-o, não havendo relatos de contagio via leite materno.

No caso do sarampo, se indica o isolamento da mãe até 72 horas após o início do exantema, e o uso de imunoglobulina no bebê. O aleitamento materno pode ser mantido ofertando o leite materno ordenhado. Lembre que o sarampo pode ser prevenido com a vacinação, tanto na mãe como no bebê. Criar a barreira incentivando as pessoas que terão contato com a dupla mãe/bebê  a se vacinar também é uma forma eficiente de proteger os bebês que ainda não tomaram a vacina.

Em caso de tuberculoses, pode ser necessário o isolamento de mãe e bebê nos casos mais graves e resistentes ao tratamento, podendo manter o aleitamento indireto. Apenas na presença de HIV, HTLV I e HTLV II que a amamentação deve ser suspensa pelo alto risco de infecção do lactante.

Doenças que tem transmissão principal pela via respiratória, como a influenza, SARS e o mais recente coronavirus COVID19, apresentam uma probabilidade de contágio através das saliva, mãos, beijos, etc, muito maior que a possibilidade de transmissão via leite materno. Caso o isolamento ou internação materna para tratamento seja necessário, o aleitamento indireto, oferecendo o leite ordenhado pode ser mantido. 

O período de transmissão do COVID19 pode acontecer quando ainda não se apresentam sintomas. Assim, as mães infectadas com coronavírus provavelmente já contagiaram o bebê em amamentação, através do contato. Apesar da comunidade científica ainda não ter certeza se o vírus COVID19 passa no leite materno, e se uma passagem pelo leite pode atuar como forma de contágio, existem boas evidências que sugerem que manter a amamentação é melhor, se a mãe assim deseja. A amamentação tem o potencial de transmitir anticorpos maternos através do leite, que irão atuar como proteção e reforço imunológico para o bebê.

A orientação da maioria de organizações (CDC , LLL, e-lactancia, Febrasgo, SBP) é que a amamentação seja mantida e estimulada, orientando às mães tomar alguns cuidados extras. Uma mãe com COVID-19 confirmado, deve tomar todas as precauções possíveis para evitar transmitir ou aumentar a carga viral do seu bebê, lavar as mãos antes de tocar no bebê e usar uma máscara facial, se possível, enquanto estiver amamentando. Ao expressar o leite materno com uma bomba manual ou elétrica, a mãe deve lavar as mãos antes de tocar em qualquer parte da bomba e seguir as recomendações para uma limpeza adequada da bomba após cada uso. Caso mãe precisar ser isolada para tratamento o aleitamento materno pode ser mantido com o leite ordenhado.

A seguir algumas considerações sobre o manejo em relação à amamentação na presença de doenças maternas causadas por bactérias ou vírus, que precisam nossa atenção atualmente.  

DoençaOrientaçãoFonte
DengueAmamentarCDC
Zika virusAmamentarCDC, OPAS
ChikungunyaAmamentarCDC
InfluenzaAmamentarCDC , e-lactancia
Coronavirus (Covid19)AmamentarCDC , LLL, e-lactancia, Febrasgo, SBP
SARS-CoVAmamentarCDC , LLL, e-lactancia
Varicela (catapora)Amamentar com excepção
em situações de infeção
5 d. antes ou 3 d. após parto
Lamounier et al. , elactancia
Herpes ZosterAmamentare-lactancia
RubeolaAmamentarLamounier et al.
CaxumbaAmamentarLamounier et al.
SarampoIsolar a mãe,
mantendo lactância indireta
até 72 h após sintomas
Lamounier et al. , e-lactancia
HPVAmamentarelactancia
HTLV INão amamentarLamounier et al. , e-lactancia
HTLV-IINão amamentarelactancia
Hepatites AAmamentarLamounier et al. , elactancia
Hepatites BAmamentarLamounier et al. , elactancia
Hepatites CAmamentarLamounier et al. , elactancia
TuberculosesAmamentar,
mantendo lactância indireta
em caso de lesões ativas
CDC, elactancia
HIVNão amamentarLamounier et al. , CDC
Links para fonte especifica fornecido em cada caso.

Não se esqueça que é melhor prevenir que curar, medidas de proteção contra picadas de mosquitos, lavar as mãos, higienizar superfícies, e vacinação em dia, são as melhores ferramentas para prevenir a transmissão de doenças.

Referências

Lamounier, Joel A., Moulin, Zeina S., & Xavier, César C.. (2004). Recomendações quanto à amamentação na vigência de infecção materna. Jornal de Pediatria, 80(5, Suppl. ), s181-s188.

Goldman AS. Evolution of the mammary gland defense system and the ontogeny of the immunesystem. J Mammary Gland Biol Neoplasia. 2002;7:277-89.

Centers for disease control and prevention.[CDC] Breastfeeding and Special Circumstances.

Centers for disease control and prevention.[CDC]. Coronavirus Disease 2019 (COVID-19)

Liga de da leche internacional. Continuing to Nurse Your Baby Through Coronavirus (2019-nCoV; COVID-19) and Other Respiratory Infections.

e-lactancia.org. Maternal Disease, illness, problem or other Mother´s Conditions.

e-lactancia.org. Infección Materna por Coronavirus 2019-nCoV. Atualização 5/03/2020

Federação Brasileira de ginecologia e obstetrícia [Febrasgo]. Nótula complementar sobre COVID-19 e Aleitamento Materno. Quarta, 11 Março 2020

Sociedade Brasileira de pediatria [SBP]. Nota de alerta: Aleitamento materno em tempo de COVID19! 13/03/2020

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*Texto de  Zioneth Garcia


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