Relato de caso: Sono e hiperlactação.

Hoje quero compartilhar com vocês um caso muito cabeludo. Recebi para consultoria de sono, mas o sono na realidade era o menor dos problemas. Revelou se uma saga de amamentação intensa. O bebê tinha 4 meses, com ganho de peso pouco satisfatório no ultimo mês, engasgava mamando, sonecas curtas, sempre no colo, e pedidos de mamada constantes. A mãe já tinha tratado uma mastites, e vivia com o peito ingurgitado, com bloqueio de ductos constantemente.  A mãe tem outro filho pequeno (3 anos), o marido trabalha a noite e precisa descansar de dia, ele lhe faz comida e coloca o mais velho para dormir a noite, ajuda no que consegue mas precisa dormir para poder trabalhar.

Houve ajuda de uma enfermeira/consultora de amamentação quando o bebês estava com 2 meses, que recomendou enfaixar o peito a noite, a pega e postura aparentemente foram ajustadas, e a mãe acreditava estar tudo bem. Foi onde veio a primeira mastites e começou a saga dos ductos bloqueados. O peito oscilava entre ficar sensível e com fissuras.

O meu manejo iniciou com a hiperlactação, foi meio óbvio, iniciamos o manejo (a distância) para conseguir melhorar a eficiência das mamadas e assim garantir o descanso do bebê. Até ai ok, ela começou protocolo blocked feeding, junto com compressas, massagens ordenha para preparar o seio e ofertar ao bebê um seio por mamada. Ele respondeu bem, dormindo melhor, começou dormir até, 7-8 hs de noite. Em compensação ela entrou num ciclo constante de peito ingurgitado e dutos bloqueados, começava o dia ingurgitado e ao longo do dia ia melhorando com as massagens, mamadas e compressas geladas. A rotina estava cansativa. Sugeri dar mamar após 5-6 hs de sono noturno, quando ela acordasse no meio da noite  com o peito cheio. Melhorou, pelo menos já não levantava com dor.

Nesse meio tempo, apareceu mamilo machucado (novamente), ela mandou umas fotos do bico, pedi para ir ao banco de leite avaliar a pega e língua do bebê. Falaram que tudo OK. Pedi para avaliar freio de língua com fonoaudiologia ou odontopediatria, nos planos de saúde costuma ser mais fácil ir para odontopediatra, que não precisa encaminhamento, enquanto o atendimento de fonoaudiologia depende de encaminhamento do pediatra e autorização do plano, ela conseguiu odontopediatra primeiro, e o freio aparentemente está normal.  Mas a saga de mamilo dolorido, peito ingurgitado e hiperlactação continuava.

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Me mandou mensagem um dia cedo, com muita dor  e vermelhidão, sugerir ir no pronto atendimento, e a tarde já estava começando medicação, ela fez mastites (de novo), iniciou antibiótico e anti-inflamatório.

Com toda essa dor e sofrimento da mãe, a família começou pressionar para ela desmamar e secar o leite, até a ginecologista que acompanhava sugeriu suspender a amamentação, porque estava sendo muito sacrificante para ela (o bebê agora estava Ok). Fez US do seio (normal), anti-inflamatório, compressas, antibiótico, nada de melhorar a hiperlactação, já com 5 meses o bebê.

A última cartada foi visitar uma mastologista, a mãe foi decidida acatar qualquer sugestão, até mesmo secar o leite com medicação. O relato que ela fez da consulta não poderia ter sido mais maravilhoso! “ela foi muito boazinha, ficou 2 horas comigo. Falou que o bebê não sabe mamar até agora, que não projeta a linguinha e fica pegando com a gengiva e por isso faz as fissuras” . A mastologista orientou a postura, a pega correta, e exercícios para projetar a língua do bebê e corrigir o padrão mordedor durante a mamada.


Aleluia!!! Finalmente algo que dá a luz nesse caso tão serio de hiperlactação. Uma profissional se deu ao trabalho de fazer avaliação completa da BOCA DO BEBÊ!!! Percebeu uma irregularidade com a língua, mesmo não tendo freio curto, a língua pode ser a causa de toda a saga de hiperlactação. O organismo da mãe faz uma compensação aumentando a produção do leite materno para suprir a demanda do bebê quando o estímulo é fraco ou inadequado (é o que acontece com bebês prematuros, p.e ),  essa produção aumentada exageradamente (que em geral deveria regular com 2-3 meses) se manteve pela resistência da mãe, e sua determinação em manter a amamentação.

Resumindo a saga, pediatra,  GO, banco de leite, nenhum deles avaliou a boca e a sucção que o bebê fazia, o que era a chave de toda a situação. Agora inicia outra saga para conseguir projetar a língua para fora com exercícios. A mastologista seguiu com o mesmo protocolo e compressas e massagens para aliviar o ingurgitamento e evitar outra mastites. Imagino que agora o bebê será encaminhado para fonoaudiologia para acompanhar a situação da língua, até mesmo pensando no processo de introdução alimentar que se aproxima. Apesar do acompanhamento ter finalizado, esse caso mexeu comigo, então aguardo o desenrolar nos próximos capítulos.

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