Não há suporte científico, ético nem moral para aplicar métodos de choro desassistido com as crianças.

Já lhe sugeriram deixar seu bebê chorar até que se durma?  Seu coração de mãe ou pai se incomoda com esse método mas você não vê mais saída? Antes de fazer, venha ler por que esse sistema de treinamento de sono está sendo cada vez mais desaconselhando pela comunidade científica.

Após décadas e estudos que revelam a importância de atender o choro das crianças, para seu saudável desenvolvimento neurofisiológico e social, continuam aparecendo mais e mais copias do método Estivill, onde se usa o choro controlado (que está mais para tortura) para treinar o bebê dormir. Podem mudar o nome, colocam termos fofinhos, mas não deixa de ser choro desassistido: deixar o bebê chorando, lhe ignorar por vários segundos, vários minutos, algumas horas ou varias noites seguidas, até a criatura aceitar que não vai vir ninguém. Pode mudar a forma, mas a essência é a mesma.

O entendimento dos processos fisiológicos reguladores do sono em bebês e crianças, assim como o entendimento do desenvolvimento neuro social das crianças, tem avançado muito nas ultimas décadas. Muitos neurologistas, assim como varias associações de pediatria e medicina do sono, descartam o uso de treinamento de sono através de choro controlado e desassistido como mecanismo eficiente de regular e prevenir distúrbios de sono, chegando apontar seu uso como um risco para a saúde mental de mães, pais e principalmente das crianças.  

Foto por Laura Garcia em Pexels.com

Diga Não ao choro desassistido

Pesquisas como as de Allan Schore, neuropsicólogo na prestigiada UCLA (Universidade de Los Angeles, Califórnia). Especialista em compreender como o apego e estresse afetam o desenvolvimento do cérebro,. está mostrando como o cuidado emocional que recebem as crianças nos dois primeiros anos de vida marca o resto da nossa existência (mais uma evidência dentro da teoria dos mil dias). Esse senhor até mesmo define a morfologia do nosso cérebro. Schore explica em seus trabalhos científicos brilhantes por que depois de muito chorar o bebê geralmente acabam vomitando, como o próprio Estivill menciona.  Ele dedica uma extensa explicação à descrição do “terror” que é para o bebê chorar sem conforto, as mudanças bioquímicas que ocorrem em seu cérebro, e a marca de que esse estresse repetitivo pode deixar nessa pessoa para a vida (veja a pag 15 da pesquisa aqui). Ele explicou como o cérebro do bebê é construído em essa relação com a mãe e o pai, e quão importante é o conforto. Schore também investigou processos similares em outros mamíferos e tem evidências de como quebrar o vínculo tão cedo pode trazer graves consequências para o desenvolvimento.

Uma das mais reconhecidas instituições a investigar os aspectos neuro-hormonais da sincronia que ocorre entre mães, pais e bebês, durante a criação,  a “Center for Developmental Social Neuroscience –  Interdisciplinary Center (IDC) Herzliya
Herzliya, Israel
 ” dirigida por Ruth Feldman. Tem publicado nas ultimas décadas vários estudos sobre a influencia das escolhas parentais no desenvolvimento neurofisiológico das crianças, mostrando cada vez mais a importância  do contato corporal próximo e atenção imediata ao choro dos bebês, até bem depois do primeiro ano de vida, no processo de estabelecimento das bases neurológicas para o comportamento (resposta ao estresse, sono, agressividade, etc).

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Em outro dos locais de referência para o estudo da relação entre os cuidados parentais e o desenvolvimento infantil (Department of Psychiatry, University of Michigan), James Swain, um psiquiatra infantil que pesquisou amplamente e a resposta das mães ao choro do bebê, concluiu que está resposta é o marcador mais importante na neurobiologia do apego, e seria uma prova que a mãe é sensível e cuidará efetivamente de seu bebê. Acordo com esse trabalho áreas cerebrais diretas de mães e pais são ativadas com o choro do bebê, a ativação que produz o comportamento imediato de pegar o bebê e confortá-lo é então natural, e sugerida como sinal de uma relação saudável entre pais e filhos.

O Método Estivill já tem varias décadas e continua quase inalterado, sem nenhuma evidência cientifica robusta que lhe sustente, mas com uma fortíssima estratégia de marketing por trás. Um dos poucos artigos relacionados a está técnica, traz uma população de 46 famílias, de  Barcelona e São Paulo. O artigo de 2008, que traz entre os autores o próprio Estivill, ignora completamente os avanços que varias instituições tem trazido no entendimento do desenvolvimento neurofisiológico infantil, sem falar dos sérios problemas metodológicos do mesmo  (veja o artigo aqui).

Em 2016, Michael Gradisar e colaboradores, com uma mostra populacional de 43 bebês, concluíram que o choro controlado não resulta em nenhum impacto prejudicial tanto para o bebê quanto para os pais. Porém, foram apontados vários problema metodológicos que dificultariam chegar a essa conclusão através dos dados coletados. Apesar de ter uma preocupação em monitorar os níveis de cortisol, ignoraram os aspectos fisiológicos e circadianos na hora de planejar essa medida. Estudos anteriores mostram um pico de cortisol em bebês logo após 25 minutos após um evento estressante (por exemplo, uma queda) mas incrivelmente os níveis de cortisol foram medidos após uma semana da intervenção com choro desassistido, o que provavelmente não mostrou o pico verdadeiro de estresse que estes bebês enfrentaram. Assim, as medidas de cortisol tomadas neste estudo não são suficientes para chegar às conclusões dos autores. Por outro lado, eles avaliam a relação com os pais só após seis meses da intervenção, através de questionários que foram sinalizados por eles mesmos como duvidosos (veja o artigo aqui).

Suportar uma indústria de desapego em uma população de 46 ou 43 crianças, e usar esses artigos com metodologias duvidosas, seriamente questionados na comunidades cientifica é no mínimo questionável em termos éticos e profissionais. Não é porque aparece numa revista científica que a evidência colocada é realmente valida em termos científicos ou que a hipóteses levantada recebe adequado suporte. Profissionais que trabalham com crianças e famílias, temos o dever de escolher as melhores evidências, as mais robustas e melhor aceitas pela comunidade científica para ajudar as famílias. Temos o dever moral de nos atualizar constantemente e oferecer o melhor de nós para quem procura nossa ajuda.

Moralmente acho questionável qualquer pessoa sugerir para os pais colocar seu filho ou filha para sofrer, chorando sozinho no seu berço, ignorando o risco potencial que altos níveis de estresse podem trazer para o desenvolvimento do cérebro dessa criança bebê, e o prejuízo para a formação do relacionamento dessa criança com seus pais. Num mundo que precisa de união, empatia e senso de coletividade, promover a solidão desde o berço parece moralmente conflitante.

Já passou da hora de parar com esses métodos ultrapassados sem evidências cientificas robustas. Ciência não faz marketing, mas trabalha continuamente para melhorar nossa vida.  Se você está gestante NÃO COMPRE NANA NENÊ, se você já comprou não o leia, se já começou ler, faça uma leitura criteriosa, e se tentou e não deu conta de deixar seu filho chorar PARABÉNS! Você é uma mãe ou pai com um relacionamento biologicamente saudável com seus filhos. 

Existem outros caminhos para melhorar o descanso familiar, gentis com a criança e com a família: DIGA NÃO AO CHORO DESASSISTIDO. Dependendo da idade da criança o manejo da rotina familiar, onde se satisfaçam as necessidades da criança e dos seus pais, a comunicação constante e o uso de educação positiva podem ser mecanismos extremamente eficientes para a readequação metabólica dos ciclos de sono da criança e sua família .

Referências:

Allan N. Schore. Dysregulation of the right brain: a fundamental mechanism of traumatic attachment and the psychopathogenesis of posttraumatic stress disorder. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry 2002; 36:9–30

J. E. Swain, P. Kim, and S. S. Ho. Neuroendocrinology of Parental Response to Baby-Cry. J Neuroendocrinol. 2011 November ; 23(11): 1036–1041

Feldman, Ruth. . Parent-infant synchrony: A biobehavioral model of mutual influences in the formation of affiliative bonds. Monographs of the Society for Research in Child Development. 2012 . 77. 42-51.  

Ramsay, D. and M. Lewis, Reactivity and regulation in cortisol and behavioral responses to stress. Child development, 2003. 74(2): p. 456-464

Tenenbojm E, Angelis G, Rossin S, Estivill E, Segarra F, Reimão R. Insomniac children maternal sleep and mood in São Paulo and Barcelona. Arq Neuropsiquiatr. 2008 Sep;66(3A):482-4.

Michael Gradisar, Kate Jackson, Nicola J. Spurrier, Joyce Gibson, Justine Whitham, Anne Sved Williams, Robyn Dolby, David J. Kennaway. Behavioral Interventions for Infant Sleep Problems: A Randomized Controlled Trial. Pediatrics . 2016. 137 (6): e20151486. https://doi.org/10.1542/peds.2015-1486

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Texto original de Zioneth Garcia

Atualizado 11/05/2022

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