Placenta: O quê fazer com ela? comer ou não comer?

 

Celebridades como a Kim Kardashian e Bela Gil, declararam ter comido a Placenta, o que em seu momento causou grande polêmica e despertou uma série de comentários que vão desde os curiosos até os enjoados e reprovadores. Mas por quê será que optaram por comer a placenta? 

Uma amiga perguntou se existia alguma evidência científica por trás dessa prática, e curiosa que sou fui atrás. O que achei foi tão inconclusivo e vago, o que só me permitiu chegar a uma conclusão: cada uma decide. De um lado uns listam os benefícios de comer a placenta (veja aqui ) e do outro lado estão os que dizem que não há benefícios (veja aqui ). Em nenhuma das duas posturas encontrei estudos realmente fortes sustentando uma ou outra. Ou seja, não há uma amostra, com comparação a um padrão, avaliando quantitativa ou qualitativamente os benefícios ou riscos do consumo da placenta (olha ai a dica de estudo para quem é da área).

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Foto da placenta da Lucinéia Schirmer Corrêa

Vamos aos fatos: A placentofagia humana não é nova. Ao longo da história, diferentes culturas têm feito isso. Então lembrei de um documentário (daqueles da National Geographic que amava na adolescência) sobre tribos africanas consideradas canibais justamente pelo consumo da placenta pelo clã da parturiente, uma expressão cultural de celebração e respeito pela vida nova. Inclusive eram atribuído à placenta o poder de fortalecer os homens que sairiam para caçar e de aumentar a fertilidade das jovens recém casadas para terem mais filhos e mais saudáveis.

Na cultura chinesa a placenta também é altamente valorizada e recebe atributos medicinais, acredita-se que pode ajudar a mulher no pós parto, sendo usada na sua forma desidratada, podendo trazer benefícios tanto para a saúde física e como para a saúde mental da mulher. Hoje tem se popularizado o seu uso em forma de cápsulas, algumas doulas se especializaram nos procedimentos para a desidratação da placenta. Pelos benefícios que lhe são atribuídos, essas cápsulas de placenta desidratada parecem funcionar como um suplemento de vitaminas e minerais durante o puerpério.

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Carimbo de placenta feito pela enfermeira obstetra Nathália Freitas Villela para sua paciente Marina, quem emoldurou. 

Indo mais longe, até nossos parentes animais do mundo selvagem, a placentofagia é tão comum quanto a moda de amamentar os filhotes. Acredita-se que nesse caso a placentofagia teria duas funções, a primeira é limpar o bebê, estimular sua respiração autônoma e limpar o ambiente, eliminando os restos que possam se decompor e revelar a posição da recém parida vulnerável e seus filhotes indefesos, aos predadores ou inimigos naturais. Por outro lado, comer a placenta pode ser também a única refeição que a fêmea recém parida terá por alguns dias, especialmente para as espécies de caçadores, nas quais a mãe não abandona a toca ou se isola do seu grupo por alguns dias. 

Nossos animais domésticos podem mostrar esse comportamento também, e quem já viu a gata ou cachorra parindo sabe bem que essa hora é para ficar longe e deixar o instinto atuar. Quanto menos intervenção, melhor. Na hora que a mãe deixa ver os filhotinhos já os encontramos limpinhos e sem rastros de placenta. Alguns bichinhos sumamente domesticados, que perderam o convívio com semelhantes há tempo, podem ter perdido esses traços e na hora do parto são justamente o que mais precisam auxílio.

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Placenta virando planta da Joana Locatelli Heerdt

Para nós, humanos do mundo ocidental, não faz mais sentido a placentofagia, já que estamos em uma sociedade sem tais padrões culturais, sem o perigo de predadores, sem isolamento nem fome, ainda contamos com inúmeras opções de suplementos de vitaminas sintéticas que oferecem os mesmos benefícios atribuídos à placenta nas outras culturas. Biologicamente falando eu diria que pode ser considerada uma conduta vestigial, uma lembrança de nossos ancestrais que mantivemos sem benefício específico, pelo menos não um documentado através da ciência moderna, sob a logica do método científico.

Porém, receio que a falta evidência científica seja apenas um efeito da falta de estudos sobre o tema. Se tantas culturas antes da nossa veneravam e consumiam a placenta, deve existir algo que ainda não sabemos sobre está prática. Apesar de não ter benefícios comprovados mediante um método científico, também não tem nenhum malefício verificado. Somos seres biológicos, já fomos animais,  igual todos os outros, nós já comemos a placenta antes, escolher comer a placenta no parto não é nada novo! 

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Carimbos de placenta da Elaine Odwazny – Doula

Algumas mulheres e profissionais olham a placenta como um resíduo do parto outros olham como um subproduto que pode ser reaproveitado. No final das contas o que importa não é o que o profissional acha, mas que ele respeite o que a mãe decidir, sejam qual sejam suas convicções. Então gente, se você quer comer, bon appetit. Se quer desidratar e consumir como vitaminas, beleza, bom para você. Se quer apenas levar para casa e congelar num pote de sorvete até decidir o que fazer, ótimo. Se prefere carimbar em papel as formas orgânicas, fazer muitas fotos da sua placenta com e sem bebê ou levar para o seu quintal e plantar uma árvore, bom para você.  Se você prefere fazer outra refeição após o parto e deixar sua placenta para trás, muito bem. O importante é que você se sinta à vontade com sua decisão e que aquilo que você decidir seja respeitado.

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*Texto original de Zioneth Garcia.

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