Educação positiva

Educação positiva: Entrevista Revista Babies Joinville

No final de 2016 fui entrevistada pela  Revista Babies de circulação em Joinville e Região, foi uma entrevista muito boa, por isso merece ser lembrada. Saiu na Edição número. 15 (Nov 2016): 18-19. 

Revista babies: O que é a educação positiva?

Zioneth Garcia: A Educação Positiva é uma abordagem para a educação e para a vida de uma maneira geral. Se sustenta na ideia de que seja em casa ou na escolas, ou em qualquer outro ambiente, o bem estar pode e deve ser ensinado. Tem toda uma teoria psicológica desenvolvida ao redor do conceito de bem estar, uma ideia que surge desde a psicologia positiva.

Ao lado da educação positiva surge o conceito da disciplina positiva, uma forma de  ensinar aos nossos filhos as regras do nosso mundo, baseada no amor e respeito pelo seu tempo biológico, suas emoções, suas capacidades e personalidades. Educar de forma positiva significa não usar a violência física nem psicológica para moldar os comportamentos de nossos filhos aos padrões do nosso mundo, ou seja, não usar palmadas, cinto, ameaças ou castigos para que eles façam o que é preciso. Educação positiva, usando disciplina positiva, ao contrário do que alguns possam pensar, não é educar sem choro ou deixando os filhos fazerem tudo o que tiverem vontade. É mostrar às crianças o mundo como ele é, com suas regras e limitações, sem deixar de o tornar amável e acolhedor para sua infância.  Afinal, estamos ensinando cidadãos.  

Educar de forma positiva, usando a disciplina positiva como ferramenta, é uma escolha por uma filosofia de vida abrangente, na qual ajudamos a criança a desenvolver sua consciência, guiando-a pelo caminho do autoconhecimento e a compaixão em relação aos outros. A educação não violenta usando a disciplina positiva se serve das nossas capacidades emocionais; somos cobrados constantemente para aumentar a capacidade de reconhecer nossos próprios sentimentos, de nomear e expressar estes corretamente, para que assim possamos reconhecê-los naquela pessoinha ao nosso cuidado, mesmo quando na maior parte do tempo ela ainda não consegue reconhecê-los e nomeá-los, precisa ser ensinada para que isto aconteça.

RB: Existe receita para educar?

ZG : Não, não há fórmula mágica para a educação. O que pode funcionar com você, quiçá não funcione com sua amiga. O contexto cultural, social e mesmo logístico que cada família vive é único, são inúmeras variáveis a ser consideradas nesse caminho. A história de cada pai e mãe, a história da chegada dessa criança, os gostos que ela desenvolveu, as coisas que a cativam e que a aborrecem. Até mesmo entre crianças da mesma família não podemos usar “fórmulas” de educação, cada criança tem sua própria história e através dela se constrói sua personalidade. A educação positiva, para dar certo, respeita e atende as peculiaridades de cada criança, o que só é possível com a observação e reconhecimento de cada criança como indivíduo completo e complexo.

Receitas prontas para educar, fazer dormir, etc, em geral negligenciam as peculiaridades de cada indivíduo e cada família, impondo padrões predeterminados à vida das pessoas. Nem receita de bolo dá sempre certo, então é bem improvável que receita para criar filho vai dar em algo bom.

RB : Como e quando é ideal começar a aplicar a disciplina positiva?

ZG: Não tem tempo ideal, qualquer hora é boa hora para começar, seja ainda tentando engravidar ou grávida, se informando e trabalhando no autoconhecimento e a própria educação emocional, com o bebê novinho ou filho crescido, começando observar e respeitar suas peculiaridades. Incluso é incrível ver como algumas vovós que têm contato com essa nova abordagem passam a ser as mais assíduas defensoras de seu uso na educação de seus netos.

Começar não é fácil, com uma cultura de naturalização da violência de séculos de implantação, o caminho da educação sem violência e o encontro da disciplina positiva como alternativa de criação de filhos e cidadãos nos leva a uma busca pessoal por autoconhecimento, que passa pelo perdão do passado, conciliação do presente e trabalho árduo para ter um futuro esperançoso. Desenvolver a empatia, a comunicação e o amor são desafios do dia dia, e constituem nossas armas mais poderosas na disciplina positiva. Para os pais o primeiro passo é pensar:  Que tipo de pai/mãe você quer ser? Qual é a lembrança que espero que meus filhos tenham de mim? Que mundo quero ajudar a forjar? Vou contribuir com essa naturalização da violência em nossa cultura?

Um bom começo é observar e reconhecer a criança, ver nela um ser humano completo e complexo, entendendo sua natureza, suas fases de desenvolvimento, aceitando as limitações próprias da sua idade, aceitando que ela como nós tem um universo próprio de sentimentos e emoções mas ainda inexplorado e descontrolado, refletindo sobre os limites que colocamos à criança, e começando a mostrar a ela as regras e limites do mundo na medida que vão  topando com eles. É importante então manter o vínculo afetivo de forma positiva, sem implantar medos, ameaças ou chantagens na hora de educar, assim irá se fortalecer a conexão entre pais e filhos tão essencial para a educação positiva.

 

O objetivo final, ao educar nossos filhos dessa maneira, é ajudar a criança desenvolver o autocontrole e a autodisciplina. Nossa esperança é que nossos filhos sejam capazes de escolher o seu caminho conscientemente, assumindo as consequências de suas escolhas, fazendo o que acham certo, legal, moral e eticamente.

 

RB: Como devemos agir diante de uma crise de choro?

ZG: Com calma antes de mais nada. se colocar na posição de adulto da situação e manter o controle das próprias emoções.  É importante entender que o choro é a primeira e mais eficiente forma de nossos bebês e crianças pequenas se comunicar. Até para nós adultos, o choro é também uma forma de extravasar a emoção. Então, entendendo isso, podemos começar a encarar o choro não como uma afronta ou desafio que a criança lança contra nós, mas como uma necessidade de entender o que está molestando a esta criança. As crianças não choram para nos perturbar, elas choram porque estão perturbadas com alguma situação, sensação ou emoção.

 

A melhor forma de enfrentar as crises de choro é antes que elas aconteçam, com prevenção, mantendo a criança com suas necessidades básicas satisfeitas (isto inclui atenção e afeto), mantendo ela num ambiente seguro e controlado, com rotinas ou roteiros de atividades diários, conversando continuamente e comunicando a ela o que está fazendo e fará a seguir, explicando para ela claramente com antecedência o comportamento que espera dela numa determinada situação,  e principalmente levando em consideração a fase de desenvolvimento e os desejos da criança, esperando dela só aquilo que realmente pode nos oferecer. Como vou pedir calma para uma criança que leva 1 hr esperando sentado na sala de espera de um consultório? Está entediada, está com fome e quiçá com medo do que está por vir.

É claro que nem sempre podemos prevenir as crises de choro, então uma vez que acontece, a ideia é se conectar com a criança mostrando que você entendeu a mensagem, refletindo o sentimento que você acredita que ela está, frustrada? chateada? brava? Irritada? A linguagem que usamos depende muito da fase da criança e da forma como nos comunicamos com ela, o importante é que ela entenda que nós ouvimos e entendemos, e que mesmo não conseguindo ceder ao pedido, sabemos o que está sentindo e acolhemos seu sentimento. Permitir se expressar é importante. Precisamos re-avaliar essa urgência que sentimos para calar o choro a qualquer custo, é ai que cairmos no desespero de falar “engole o choro” ou partimos para chantagens, ameaças, castigos ou quebramos nossas próprias regras.

Nas crises de choro, observe a razão, acolha e tente solucionar, se não dá para solucionar, acolha do mesmo jeito e espere a intensidade da emoção passar. Lembre-se que seu filho não chora para lhe fazer passar vergonha, ele chora porque tem alguma coisa errada.

RB: Muitos pais ainda acreditam que uma palmadinha de vez em quando é importante e não faz mal? Como mudar a opinião dessas pessoas?

ZG:  É importante lembrar que bater em criança não é mais aceitável desde nenhum ponto de vista, hoje a legislação Brasileira entende como crime a punição física, assim como qualquer  tipo de apologia à violência com crianças. Não existe isso de criança que precisa apanhar, existem adultos que não são capazes de ensinar essa criança se comportar do jeito considerado certo. A palmada é um recurso desesperado e errado, e diz mais sobre as limitações do adulto educador do que da criança. Os castigos em geral, sejam físicos ou psicológicos, focam nos comportamentos negativos da criança, tentam ensinar na base do medo e não da consciência dos próprios atos. Quando se bate na criança estamos apenas multiplicando e reforçando na nossa sociedade as atitudes que tanto detestamos.

Quem ensina na base do medo rapidamente perde a confiança e a conexão com a criança, o que é muito sério por acabar colocando nossos pequenos em posição vulnerável frente a outros tipos de abusos vindos dos adultos, desde os mais pequenos e rotineiros como dar beijo para tiazinha da rua sem nem conhecer até abusos de maior caráter.

Além, as crianças não ficam crianças para sempre, uma hora crescem e só palmadinha não vai mais funcionar, e na falta de comunicação efetiva podemos perder esse adolescente para o mundo.  

RB: O que realmente importa na hora de educar?

ZG: O respeito pela criança, pelas suas fases de desenvolvimento e suas particularidades, a consciência de nossas próprias limitações e as noções e limites que queremos ensinar aos nossos filhos.

Não podemos esquecer que a melhor forma de educar nossos filhos é o exemplo, se quer filhos gentis, respeitosos, amorosos e empáticos, seja hoje um homem ou mulher gentil, respeitoso, amoroso e empático, não apenas com eles mas com todos ao seu redor, seu filho está sempre de olho em você.

 RB: Quais as consequências que uma criança educada com castigo poderá ter futuramente?

ZG: A infância é o tempo que nosso sistema modulador de emoções se forma, existem hoje vários estudos que sustentam como o uso de castigos físicos pode alterar esse sistema modulador. Então, as crianças que são educadas com castigos num primeiro momento podem perder a confiança nos pais e educadores, começar a fazer as coisas a escondidas por medo da punição, se tornarem crianças mais suscetíveis à expressão de comportamentos violentos, e com o tempo e a manutenção desse sistema baseado no medo, se tornarem pessoas inseguras com problemas para expressar seus sentimentos, com explosões violentas e dificuldades para aceitar as dificuldades normais da vida. Em últimas, crianças educadas com qualquer tipo de violência se tornam multiplicadoras da violência. Basta olhar nossa sociedade hoje, séculos de implantação da cultura do castigo nos trouxe a um mundo onde “se ninguém me viu fazer, então está certo” . Estamos com sérios problemas de ética e moral em diversos campos, basta olhar o jornal para entender.    

 

RB: A partir do momento que se começa a aplicar a disciplina positiva. É mais difícil os pais conseguirem mudar sua postura ou o filho evoluir?

ZG: O mais difícil acho que é o pai coerência entre o que se ensina ao filho e o que fazemos em nossa vida cotidiana. Ensinamos não gritar com os colegas, mas continuamos a gritar entre o casal. Ensinamos respeitar a vez do outro mas passamos o sinal em vermelho. São essas pequenas ações do dia dia que acabam tornando o exercício da disciplina positiva cansativo, é muita coisa que precisamos começar corrigir em nós ao mesmo tempo que corrigimos neles.

 

A paciência também é difícil, queremos mudanças imediatas e não é bem assim que tudo acontece. Sempre ouço “mas já falei mil vezes o mesmo porque ele continua fazendo o mesmo?” bem, quiçá seja preciso falar mais mil vezes ou mudar de estratégia. Dependendo da idade falar 1000 vezes não basta, tem que também tomar um atitude, se quer que o pequeno saia do lugar e você já falou e não aconteceu nada? então vai até ele e ajude-o sair.  

 

RB: Como devemos conversar com nossos filhos? Muitas vezes temos a impressão que eles são muito pequenos e não vão entender

ZG: Conversar com os filhos vai depender da idade. Uma criança menor de um ano entende muito mais tom da voz e os gestos do que as palavras propriamente ditas. Então pode ser muito mais eficiente para mostrar ao bebê que você não gostou de algo que ele fez com um grunhido e um olhar fechado de desgosto.

Já as crianças que começam desenvolver a fala, podem entender as palavras associadas ao tom de voz e linguagem corporal.  

O ponto chave é entender que comunicação acontece em vários níveis, não é  apenas palavras sendo ditas, elas precisam ser acompanhadas do conjunto tom da voz, linguagem corporal e gestual.  Crianças entendem muito mais do que acreditamos, podem não entender palavras complexas mas com certeza entendem sentimentos já desde bem cedo. Então um exercício muito interessante de fazer com os bebês é o de falar tudo o que vai acontecendo com eles, uma troca de fralda que precisa de calma, então vamos falar com ele e narrar de forma calma para lhe transmitir essa sensação de alívio por exemplo. Ou se é preciso que ele se retire de um determinado local que pode ser perigoso então precisamos imprimir o tom de urgência e perigo na nossa voz.

 

Se falamos “Não, é perigoso” em tom jocoso a criança vai entender que é apenas brincadeira e não vai dar a mínima para sair do lugar.

RB:Fale um pouco de você?

ZG: Sou mãe de dois crianças. Sou Dra. em Ciências Biológicas e por causa dos meus filhos e as dificuldades que tive no começo acabei me aprofundando no universo da maternidade, usando minha formação como cientista para estudar muito a cada novo desafio que a maternidade ia me trazendo:  a gestação, o parto, a amamentação, a alimentação saudável, a chegada do segundo filho e agora a educação positiva. Com todo o material que compilei senti a necessidade de compartilhar, então acabei criando o Mães com Ciência desde onde ofereço palestras, cursos, consultoria em amamentação e assessoria para as mães e famílias em diversas áreas. Para quem quiser acompanhar e saber mais minha fanpage é https://www.facebook.com/maescomciencia/

RB: Recomenda algum livro que possa ajudar a entender mais sobre o assunto?

ZG: Tem vários livros interessantes alguns com abordagem mais prática e outros mais reflexivos.

Alguns com dicas práticas:

-Limites Sem traumas de Tania Zagury

-A criança mais feliz do pedaço de Harvey Karp

-Soluções para disciplina sem choro de Elizabeth Panley

-É possível educar sem palmadas? Um guia para pais e educadores. de Luciana Maria Caetano

Uns que considero mais reflexivos e muito importantes para interiorizar o pensamento

-Criando Filhos sem palmadas de Ligia Moreira Sena e Andreia Mortensen

-Inteligência Emocional de John Gottman

-Disciplina Positiva  de Jene Nelsen

Precisa ajuda?

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Texto original de Zioneth Garcia

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