Relato de parto de meu Antonio.

Esse é o relato de parto de meu segundo filho. Vai ser um relato de fatos misturado, e me desculpem antecipadamente se o fio condutor se enrolar em algum ponto. Fica impossível não comparar com o nascimento de minha primeira filha. 

Para começar, fiz escolhas para o parto pensando não só em mim e no bebê, mas no meu marido e minha primeira filha (2 anos). Assim que me soube grávida pensei logo em Parto Domiciliar (PD), procurei um GO antenado no mundo da humanização do parto, já entrei falando tudinho…. desde não querer viver um novo parto a-normal cheio de intervenções, que contaria com doula e que estudávamos a possibilidade de ser um PD. Fui bem clara desde o começo e ele também foi, então fomos em frente com o pre-natal. Com minha primeira filha bati de frente com a realidade Brasileira, passei por quatro GO, apenas falava em Parto normal me mandavam procurar outro GO e quando achei um que topou o parto nunca quis discutir nada sobre plano de parto, Trabalho de Parto ou parto…  ao falar de parto a resposta sempre foi “depois nos preocupamos com isso”.

Na procura pelas parteiras e logo no primeiro encontro com a doula analisamos todas as opções para o parto, e fico claro que o PD poderia ser complicado, pelo histórico do primeiro parto (4 hs de TP e 20 min de expulsivo) era bem provável que o segundo fosse ainda bem mais rápido e quiçá a parteira não conseguiria chegar, a parteira vinha de Campinas e eram de 2 a 3 hs para ela chegar em Ribeirão Preto. Meu marido Paulo morreu de medo de ter um parto desacompanhado e eu morri de medo de terminar sendo levada para um hospital qualquer . Mas se nos presentou a oportunidade num novo hospital que conta com sala PPP e uma equipe humanizada única, era caro mas tivemos a sorte que o plano cobriu quase todo.  O GO que me acompanhava fez questão de se credenciar em esse hospital e começamos fazer as consulta lá. Conhecemos a sala PPP e a equipe e ficou decidido que seria lá.

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Todas as pessoas que estiveram envolvidas em todo o processo foram extremamente respeitosas, discutimos o plano de parto tanto com o medico como com a equipe do hospital, o que foi essencial na hora do parto. Bem diferente do GO e da equipe de minha primeira gravidez, cada que falava em plano de parto desconversava e falava para não me preocupar com isso. Uma das questões que mais nos preocupava era o que faríamos com minha primeira filha na hora do parto, sei que muitas pensaram, eu levava junto né?… mas se revelou não ser uma questão tão simples. Maria Isabel é uma criança extremamente protetora, começamos levar ela junto nos US e consultas e simplesmente vimos que não ia rolar ela junto na hora do parto, ela ficava muito nervosa quando alguém, qualquer um chegava perto de mim para tomar pressão, fazer ausculta e com o tempo essa proteção se dirigiu à barriga, por mais que pareça grande e esperta, ela ainda era um bebe e o senário do trabalho de parto e parto poderia ser constrangedor para ela ainda.

Com 28 semanas já estava com contrações constantes, as famosas  contrações Braxton Hicks, mas eram muito frequentes podia sentir que estavam trabalhando o colo do útero, como minha primeira bebe nasceu com 36 semanas (a bolsa rompeu espontaneamente) o medo era que Antonio também estivesse querendo nascer antes da hora certa, com o GO discutimos a conduta a seguir já que tinha risco do bebe vir pre-termo.  Algumas mães acompanharam minha saga procurando informação sobre a progesterona e os corticoides nas comunidades de Facebook.

Na espera de Antonio

As contrações continuaram cada vez mais frequentes e chegaram a apresentar ritmo com 31 semanas, assim que aproveitando o US que já tinha marcado, pedi para que medissem o colo do útero e avaliassem se estava fechado. Afortunadamente estava fechado mas estava muito fino para a idade gestacional, assim que decidimos optar pela progesterona para diminuir a intensidade das contrações e segurar o neném mais um tempinho dentro do útero. Fiz aplicação de progesterona até 35 semanas. Nesse meio tempo, estava correndo estressadíssima com final de doutorado, entrega de teses, minha filha em férias da creche demandando atenção 25 hs  ao dia. Com 35 semanas parei a progesterona mas as contrações voltaram com tudo assim que usei por mais uns dias para garantir pelo menos as 36 semanas. Na virada das 36 semanas consegui terminar e entregar a teses, esperávamos a vinda de minha sogra, fizemos uma super-compra no mercado, já nos preparando para um parto iminente, as contrações continuaram e já não conseguia mais nem dirigir. Minha sogra chegou sábado e domingo comecei sentir contrações cada vez mais frequentes, pareciam ritmar por 1-2 hs e paravam. Conversei com minha doula me orientou apenas descansar e relaxar (coisa bem difícil de conseguir com uma criança de 2 anos e contrações frequentes). Segunda de madrugada pedi para a doula vir me avaliar, ficamos contando contrações  vinham inicialmente de 4 em 4, e iam aumentando os intervalos, foi minha filha acordar as 7 hs que tudo parou…. a doula foi embora e voltou  de novo a noite mas tudo estava igual.  Terça foi igual, e eu já estava mais cansada, não conseguia uma postura confortável para descansar… ao final do dia tive uma ausculta suspeita, conversamos com o GO e a equipe do hospital (que sempre ficaram ligados nos acontecimentos via sms) e me levaram fazer uma cardiotocologia.

Estava normal, mas com a linha base um pouco baixa. Era evidente que eu estava cansada, estressada, ansiosa. Pediram para repetir o exame ao dia seguinte, e tentar descansar, relaxar, dormir. Ao repetir o exame tudo deu normal, Antonio estava ótimo.  A essa altura eu já tinha superado umas 4 ou 5 vezes a dor de trabalho de parto que senti com minha primeira filha, a ansiedade e o cansaço me tinham dominada. O ultimo toque que fiz foi nesses dias, estava com 4 cm e apesar das contrações não parecia aumentar a dilatação.

Essa semana tomei tudo quanto for chá para “engatar TP” usei todo o que consegui de técnicas para “acelerar TP” e nada funcionou. Madrugada de sexta feira novamente ligamos para a doula, de novo contrações ritmadas, mas dessa vez umas 10 vezes mais fortes que a dor do parto de minha primeira filha, e novamente, o ritmo começou diminuir até que finalmente pararam quando minha filha acordou. A essa altura eu achava que minha filha estava me causando algum bloqueio que não me permitia engatar o TP. Eu já estava entrando em depressão, esse dia só chorei, só pensava que Antonio não queria nascer porque eu ia ser uma mãe ruim. Gente parece loucura ao escrever, mas era assim que me sentia. 

Já levava 5 dias sem dormir mais de 2 hr seguidas, estressada, cansada, dolorida, e pior com todo mundo em casa incluindo minha filha estressados e ansiosos. O GO pediu para me ver esse dia, e eu fui decidida pedir uma intervenção, não aguentava mais, estava decidida mesmo que meu marido não concordasse, ia pedir ser internada para ficar longe de minha filha por tempo suficiente para o TP engatar de vez, e se não desse certo fazer uma indução… estava desesperada!

Mas eis que o medico foi muito profissional, e ganhou minha admiração e respeito eterno por isso, não topou. Outro no seu lugar toparia a indução sabendo que poderia terminar na cesárea. Mas ele não! Ele teve a paciência de me persuadir com meu plano de parto, com os mesmos desejos que eu lhe manifestei ainda na primeira consulta… para que intervir se ele está bem? Eu não queria um parto natural? A indução se mal sucedida poderia me conduzir para uma cesárea e eu não queria isso… Ainda rematou, falando que mesmo estando de 36-37 semanas Antonio poderia ser considerado pre-termo (tardio mas ao final das contas pre-termo) e ainda tinha risco de não estar completamente maduro e para a vida fora do ventre. Me diz que qualquer dia a mais que ele ficasse ali dentro seria o melhor para ele. Examinou-me e viu que cada movimento do bebe desencadeava uma serie de contrações quase ritmadas. Prescreveu analgesia básica para diminuir a irritação do útero e a intensidade das contrações de treinamento e mandou ir para casa relaxar.  

Nessa altura tinha vontade de dar um soco na cara de quem me mandava simplesmente “relaxar e descansar” era o que eu estava tentando fazer sem sucesso há uma semana e nada. Passei o resto do dia frustrada, chorando e sem entender o que estava acontecendo. Afortunadamente a medicação ajudou e consegui descansar um pouco, mas mesmo assim animicamente já estava abalada. Chamei novamente a doula no sábado de manha, mas dessa vez só para conversar. Chorei minhas pitangas para ela, entre a teses, a amamentação de minha primeira bebe, a sua APLV, e todo o que eu fiz durante esse ano, mal tive tempo para curtir a gestação de Antonio.

A cabeça de gravida é enrolada. Na primeira gestação eu fui da turma que pira em preparativos, roupinhas, chá de bebe, mobília, brinquedos, etc. Mas nessa vez mal tinha roupas para Antonio, a casa não me parecia estar a espera de um bebe novo, eu não tinha arrumado quase nada para ele, nem onde seria trocado, onde ia dormir, o seu cantinho para brincar, racionalmente eu sei que tudo isso é banalidade, RN só precisa a mãe mas na minha cabeça o ninho não estava pronto. Tirei os dias seguintes para arrumar um cantinho para ele, arrumar a mobília do quarto para caber mais um.  Até chá de benção ganhou!

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Passaram as 37, 38, 39, 40 semanas e nada que nascia, comecei fazer caminhadas todo dia com minha filha, minha sogra foi relevada pela minha mãe e cotinuamos. Na consulta das 40 semanas, combinamos que continuaríamos a esperar, o plano era que se se chegasse à consulta das 41 semanas faríamos outro exame e agendaríamos indução para depois de cumprir as 42.  Mas nasceu antes. Ufa!

Depois de tudo o dia chegou, segunda 17 de março, 40 semanas e 3 dias,  acordei por volta das 03:30hs com contrações como era costume, mas essa vez estavam mais fortes, levantei da cama para pegar a compressa quente (fiel companheira das ultimas semanas), as contrações estavam pegando ritmo, contei-as por um pouco mais de uma hora e vi que estavam de 6-6, 5-5, 4-4 (mas já tinha acontecido antes e sempre paravam). Mas essa vez não parou, ficavam cada vez mais intensas, liguei para a doula 05:30hs, ela estava em acompanhando outro parto e não poderia vir me avaliar, sugeriu me enviar  outra doula mas minha intuição grito que não, falei que iria para o hospital avaliar com a obstetriz.

Desliguei e fui ao banheiro, percebi um risquinho de sangue, com o que agora sim tinha certeza que era o dia, mandei mensagem para a doula informando a novidade e acordei meu marido, mas nem ele estava dando mais bola para minhas contrações de toda madrugada, até tentou voltar a dormir, mas desde o chuveiro lhe a acordei de um berro e pedi para ligar para  a obstetriz quem orientou chegar em 40 min que estaria tudo pronto, ligamos para o GO quem também pediu para avaliar com a obstetriz e pedir para ela retornar a ligação, enquanto ele entregava o plantão e se dirigia para o hospital.  Minha mãe estava em casa e fez um café, enquanto Maria Isabel ainda dormia. Fiz questão de Paulo tomar café enquanto eu pegava as coisas que deveríamos levar e saímos. Minha filha ficou dormida, preferi não lhe acordar.

No caminho para o hospital, quiçá pelo movimento do carro, as contrações foram ficando mais frequentes e doloridas, me lembro de estar gemendo e assoprando para tentar controlar a dor. Chegamos no hospital por volta das 06:45hs e já estavam nos esperando, e como eu tinha pedido parto na água estavam preparando a piscina. Assim que nos pediram para esperar um pouco, meu marido diz que esperamos 15 min, na verdade eu não me lembro, só sei que a sala de espera do hospital estava lotada de pessoas, fiquei um pouco constrangida de ficar gemendo  ali na frente de todo mundo e saímos para o jardim. Nesse tempo Paulo me doulo, e foi uma das lembranças mais lindas que tenho,  ele me abraço e coloco suas mãos quentes na região lombar e apertou, na hora deu um alivio enorme, a cada contração me deixava cair nos braços dele e ele sussurrava no meu ouvido “respira, respira”…. Mas isso durou pouco tempo, senti a urgência enorme de ficar de cócoras e empurrar, e eu sabia que era Antonio já pedindo via, pedi para ele informar a situação, que tínhamos que subir na hora o esse bebe ia nascer ali.

Subimos imediatamente, nem 1 min depois senti a mesma urgência, andando no meio do corredor rumo à suíte PPP, já fui arrancando a roupa de baixo, a obstetriz nos recebeu e me impediu de ficar de cócoras, nem sei como chegamos ao quarto, mal deu tempo de puxar o banquinho e sentei, as enfermeiras foram colocando lenços no chão ao meu redor enquanto eu estava em labor, 5 minutos depois, após uns três empurrões bem fortes Antonio estava nascendo ainda dentro de sua membrana, abriu os olhinhos e veio para meu colo imediatamente, eu nem tinha tirado a roupa de acima, Paulo puxou-a e Antonio teve seu primeiro contato pele-pele comigo: mágico, sublime do jeito que eu sonhei, Paulo ficou muito emocionado, nos beijamos e ali ficamos, parece que o tempo congelou, até o cordão parar de pulsar, ofereci para Paulo cortar mas ele tremia da emoção assim eu mesma cortei, e pronto agora eramos dois.  Depois veio a placenta, a vi, sendo retirada e manuseada com muito respeito, mas não fiz questão de ver de perto, pegar ou levar embora.  

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Nem a doula nem o GO alcançaram chegar, fomos só Paulo, a obstetriz e Eu, a equipe de enfermagem estava auxiliando mas não me lembro de nenhuma das enfermeiras permanentemente na sala. Durante os cuidados pós-parto, pedi para Paulo levar o Antonio ser vestido, aproveitaram para tirar as medidas e me trouxeram de volta, enquanto faziam sutura ele mamava em mim, não saiu do meu lado para nada mais. Nessas chegou o GO verificar a situação. Todos os cuidados com o RN, vacina e etc foram no meu colo com ele mamando. Bem diferente de Maria Isabel, que ficou horas longe de mim, que mal consegui ver quando nasceu e que nem acordava para mamar depois de ter sido dopada com NAN no berçário.

Anuncie para o Mundo que Antonio tinha nascido e pedi para Maria Isabel vir. Paulo foi por elas, minha mãe e minha bebe chegaram e ambas se deliciaram conhecendo-o. Fomos embora do hospital no mesmo dia, não dormimos lá, a primeira noite foi em nossa casa, nossa cama, nossa primeira Cama Compartilhada em 4.

Assim que foi anunciado pela Raquel (obstetriz que recebeu Antonio) que também ficou maravilhada por ele ter nascido na sua membrana

“ Nasce Antônio… Empelicado… Olhinhos abertos sob as membranas, descobrindo ainda protegido as cores do mundo ao seu redor… Do banquinho, direto para o colo da mãe que o recebe com as próprias mãos e, em seguida corta o cordão que para de pulsar… E Antônio recebe vida própria na transição mais calma e amorosa possível… É um privilégio ter a oportunidade de apenas assistir ao show da vida que segue seu curso, se assim a deixarmos fazer…”

Estou muito feliz do parto que tive, mesmo que não foi bem como planejado, não poderia ter tido mais amor, mais emoção, mais respeito. Não teve tempo de piscina, nem musicas, nem velas, nem óleos, nem bola, nem massagens, muito menos de fotos… não deu tempo de nada,  mas ele nasceu do jeito que o sonhei amado, respeitado, tranquilo, quase nem chorou.

Indagação posterior: depois de ficar 4 semanas em pododromos, andando por ai com 4 cm de dilatação, a curiosidade por saber o que houve foi grande. Eis que a resposta veio de uma amiga GO após um SIAPARTO. Durante toda a gestação Antonio ficou de costas para o mundo inclinado para a esquerda, as auscultas eram difíceis e se mantiveram altas até as 40 semanas. A dor que sentia e a as sequelas posteriores (inflamação no reto) sugeriam também que ele ficou pressionando um bom tempo nessa posição.  Quando finalmente rotou, colocando as costas para atrás ao lado direito,  a auscultar mudou, o trabalho de parto engrenou e finalmente nasceu.

 

 

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Texto original de Zioneth Garcia

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