Carloz Gonzalez Pediatra

Porque as crianças são assim?

Este é um fragmento que gosto muito, muito mesmo, do segundo capítulo do Livro Bésame mucho, escrito pelo  Dr. Carlos Gonzalez, não sei se a linguagem que usa me toca lá no meu coração de Bióloga, ou se li esse capítulo em particular em um momento que foi definitivo para minha maternidade. O fato é que ele não soluciona nada, ele incita a reflexão. É um pedacinho bem pequeno de um livro maravilhoso que recomendo muito para quem puder ler e reler.  Então aqui vai:

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Algumas pessoas lamentam que as crianças venham ao mundo sem manual de instruções ou que exijam estudos e um diploma para ser pais.

Por trás dessas frases supostamente engraçadas subjaz a perigosa crença de que não se pode criar uma criança adequadamente sem seguir os conselhos do especialista de plantão.

Na verdade, os pais geralmente se saem bastante bem, como fizeram por milhões de anos. A maioria dos erros que cometem não foram ideias deles, mas vêm de especialistas anteriores. Foram médicos os que recomendaram há um século dar o peito por dez minutos a cada quatro horas, o que levou a amamentação a um fracasso quase absoluto. Foram farmacêuticos os que há apenas 60 anos vendiam “pós para dentição” à base de mercúrio sumamente tóxicos, que deveriam ser administrados aos bebês para fazê-los babar, pois a “baba retida” causava graves doenças. Foram médicos e educadores os que há dois séculos advertiram que a masturbação “secava o cérebro”, e inventaram castigos terríveis e aparelhos complexos para evitar que as crianças se tocassem. Foram especialistas os que há cinco séculos recomendaram envolver os bebês como múmias para que não pudessem engatinhar, porque tinham que andar como as pessoas e não arrastarem no chão como animais. É possível que todos os erros  que cometemos ao educar nossos filhos sejam o sedimento de séculos de conselhos errôneos de psicólogos, médicos, sacerdotes e feiticeiros. Ainda bem que as crianças não vêm com manual de instruções, ainda bem que ainda não nos pedem o diploma de pais!

Como é que uma coelha deve criar seus coelhinhos? Há uma maneira muito fácil de averiguar: vamos ao campo e observamos qualquer coelha. Todas os fazem perfeitamente, da melhor forma que seus genes e seu ambiente permitem. Não precisa ler nenhum manual de instruções. Ninguém diz a elas o que devem fazer.

Uma coelha que viva em cativeiro também cuidará de seus filhotes perfeitamente, da melhor maneira que sua precária situação permitir. Sua conduta materna está basicamente controlada pelos seus genes. Mas como os grandes primatas não é bem assim. As gorilas nascidas e criadas em cativeiro, com praticamente nenhum contato com outros da sua espécie, são incapazes de cuidar adequadamente de seus filhos. Exibem comportamentos aberrantes, que podem causar a morte do filhote . Em alguns zoológicos tentaram colocar macacas jovens junto a outras mais experientes, que estavam cuidando de seus filhotes, para que as observassem. Ou experimentaram passar vídeos ou até mesmo procurarem mães humanas para dar o peito e cuidar de seus filhos várias horas por dia na frente da jaula de uma gorila grávida.

E as pessoas? Qual é a maneira normal de criar um bebê humano? Apenas temos que observar algumas mães que vivam em liberdade. Esse é o problema, porque já não restam seres humanos “em liberdade”, ou seja, que se guiem apenas pelo instinto ou seus imperativos biológicos. Todos vivemos “em cativeiro” , ou seja, em ambientes artificiais e no seio de grupos humanos com normas culturais. Como as macacas do zoológico, muitas mães atuais parecem ter perdido a capacidade de criar seus filhos seguindo seus próprios instintos. Duvidam, têm  medo, consultam livros, perguntam a especialistas…. Até mesmo chegam a sentir-se culpadas quando, anos depois, outro livro ou outro especialista  diz exatamente o contrário. Na Europa nos últimos 200 anos, a forma de cuidar das crianças passou por mudanças radicais, às vezes oscilantes, que afetaram os aspectos mais básicos: quanto tempo dar o peito, a que idade dar outros alimentos , onde a criança deve dormir, como se deve fazê-la dormir, quem deve cuidar dela as 24 horas do dia, com que idade começa a ir à escola ou a um berçário, como vesti-la, onde deve brincar, que regras ela deve aprender e com que métodos… Cada geração de pais respondeu a essas perguntas de maneira totalmente distinta e muitos de nós já não saberíamos o que responder. Era certo o que faziam nossos bisavós? É certo o que nós fazemos? Ou talvez tudo seja certo ( e então, para que tanta preocupação de fazer “bem feito”?). Ou, ainda pior, talvez tanto nós quanto nossos bisavós tenhamos errado por seguir regras arbitrárias de falsos especialistas em vez de fazer o que seria normal para nossa espécie “

Pag 30-31. Livro:

Bésame Mucho: como criar seus filhos com amor /Carlos González; [tradução Maria Bernardes]. – 1 ed. São Paulo: Editora Timo, 2015. 

Disponível aqui: http://editoratimo.com.br/livros/besame-mucho/

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