Maternidade expatriada

Esse é um relato de vários casos misturado com desabafo, a maternidade expatriada é uma situação que vivo na pele. Tenho acompanhado cada vez mais mães sozinhas, longe do seu lar de criação, as razões podem ser diferentes, mas o desafio é igual. Todas, tendo que enfrentar o desafio de criar seus filhos sem mais rede de apoio que o pai, ou com uma rede de apoio itinerante, que vem um vez ao ano ou uma vez no semestre, fica por algumas semanas e vai embora.

Ser mãe longe do lar onde crescemos, significa estar longe de nossas referências e maternas e culturais de infância. Pode ser em outro estado, ou mesmo outro pais. Sentimos saudades do tempero regional, das festas tradicionais, ao tempo que aprendemos viver tradições culturais que nos são estranhas. Aqui estou eu, uma Colombiana, criando filhos brasileiros no Sul Brasil. Misturando duas culturas, que acabará dando a eles uma identidade cultural bem diferente da minha.

Nos primeiros dias de vida do bebê o mais difícil é aceitar a pouca ajuda com a que se pode contar, lutar com a cultura de amamentação local. Principalmente para quem está fora do Brasil, pode ser bem complicado encontrar ajuda para as dificuldades com a lactância que precisam acompanhamento profissional. Não são poucas, as brasileiras que vi entregar a luta para amamentar apenas por falta de apoio profissional, se sentindo incompreendidas e abandonadas, por quase ninguém entender sua tristeza ao perder a amamentação.

Primeira vez da minha filha em Bogotá. Conhecendo minha Família

A forma como se enxerga a infância e o papel dos pais na criação, muda muito conforme a região e o pais no qual se viva. Uma mãe de dois, que mora em USA, me contava que tinha saudades dos restaurantes de Brasil, por uma coisa simples: restaurantes com área kids, ou que davam canetinhas e folhas de colorir para as crianças se distrair, algo tão comum no Brasil, mas difícil de achar em vários países na Europa e America do Norte.

Essa pressão cultural para realizar escolhas, que talvez não seriam a primeira opção, também pesa. Já ouvi desabafos sobre a pressão para deixar chorar e deixar no berço, muito cobrada em países de fala inglesa. A maternidade no brasil, e arrisco dizer que em latinoamérica, é muito acolhedora. Mães latinas fazemos de tudo para que nossos filhos tenham o minimo de choro possível, o choro nos incomodar como sociedade, é um sinal que algo não anda bem com aquela criança, para nos é normal alguém perguntar se está tudo bem. Mas essa não é a realidade que se enfrenta fora de latinoamérica, e quem está fora escuta julgamentos e se vê sozinha nadando contra uma corrente cultural diferente à que tem como referência.

Meus primeiros Tamales. Preparação que mistura as arroz, farinha de milho, e carnes de boi, cerdo e frango. Temperados e cozidos ao dentro da folha de bananeira.

A educação alimentar, é talvez uma das questões que pegou por aqui. O tempero carregado no sal e o doce do Brasil ainda me custa aceitar, em contra partida as mistura agridoce, doce/salgado, misturas de carnes, e temperos mais aromáticos (comino, pimenta, paprica), tão presentes na minha cultura, são um desafio para os meus filhos, e meu marido. Ele não curte mesmo essas misturas. O fato é que, é difícil introduzir no dia dia alimentos de nossa região de origem, já que os ingredientes muitas vezes estão pouco disponíveis. Como ensinar uma criança curtir a feijoada se mal dá para achar o feijão certo, que se dirá todo o resto de ingrediente no meio de USA. Para mim, como cultivar o gosto por uns tamales* no São Juan, se não consigo achar nem as folhas de bananeiras certas para fazer.

Uma situação que me lembro até hoje, foi com minha primeira filha , ela tinha 4 anos, estávamos na Colômbia, e ela pediu feijão de almoço, meu pai fez um feijão caprichado, ao estilo Colombiano, uma delicia, para mim, por que ela experimentou e não comeu, ela diz claramente, esse não é feijão. A sua unica referência era o feijão do jeitinho brasileiro, e o que recebeu estava longe da sua referência.

A saudades de casa bate especialmente nas datas especiais, pascóa, Halloween, Natal, ano novo. Uma mistura entre a saudades de casa, das tradições com as que cresci, e de não poder ter a oportunidade de mostrar essas tradições aos meus filhos, do jeito como eu as vivi. É tão diferente a tradição, que chego me sentir sozinha. No natal por exemplo, mesmo que prepare meus pratos tradicionais, ninguém os come pois não fazem parte do acervo de comidas natalinas do Brasil, por exemplo. No halloween, não tem fantasias e pedir doces, o apelo comercial não chega aos pés do que essa festa representa fora do Brasil.

Em contra partida, tenho aprendido viver e curtir as novas tradições, regionais, conheci as festas no interior de São Paulo, agora no Sul, adoro uma festa junina/ julina/ quermese. Adoramos milho nas mil e uma preparações, aprendi fazer sagu ao vinho, sobremesa favorita de Antonio. Ainda tento, pelo menos na intimidade do nosso lar, manter viva a chama da cultura Colombiana. Vamos criando nossas próprias tradições familiares, misturando de lá e daqui, talvez não sejam as tradições que meus filhos passaram para frente, mas pelo menos tem mais um pouquinho de mundo nas suas vidas.

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Texto original de Zioneth Garcia

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