filho na bolha

Estamos criando nossos filhos numa bolha?

A ilusão do controle

Esse texto é um chamado à reflexão, para todas as mães que sentem a necessidade de controlar a vida dos filhos nos mínimos detalhes, já andei por ai, e precisei de um segundo filho para entender que não temos o controle de nada, esse controle é ilusão, só podemos educar, dar o melhor de nós, com amor, comunicação e exemplo, para preparar nossos filhos para o mundo bizarro que lhes espera.

Imagem relacionadaDesde que nasce nosso primeiro filho tentamos ao máximo lhe oferecer o melhor do mundo, a melhor casa, no melhor bairro, com as melhores escolas,  que nosso dinheiro pode pagar. Procuramos nos rodear das pessoas que compartilham os valores e ideais o mais parecido possível aos nossos (nos rodear no virtual e o presencial).  Queremos dar o melhor para eles, isso é natural, é amor. Mas chega uma hora que as situações vão sair de nosso controle, por mais que tenhamos feito, as que consideramos, melhores escolhas, a perfeição não existe. Devemos tomar cuidado com essa ilusão de controle, é fácil acreditar que os controlamos durante seus primeiros anos de vida, sabemos detalhadamente o que comem ou não, com quem interagem ou não, a maior parte de tempo estamos junto,  mas assim que começam ir para o mundo, fora de nossa casa, fora de nosso olhar vigilante e constante, temos que lidar com a perda de controle, com a incerteza do ambiente, o desconhecimento absoluto da situação e especialmente a impotência de controlar as pessoas ao redor.

Aprender a confiar em nossa educação

Bolo MCC

Provavelmente você já passou (ou vai passar) por situações como a tiazinha fofinha que coloca brigadeiro na boca do bebê, ou o Dr. que oferta pirulito na clinica de vacinas para “premiar” a criança boazinha, a lembrancinha de aniversário cheia de guloseimas, ou o presente de páscoa ou dia das crianças que recebe na escolinha. Confesso para vocês que já foi a mãe que tinha neura com a alimentação, com dois filhos alérgicos não foi fácil de encarar, passei de chata, fresca e o que vocês possam imaginar. Então sei bem como a alimentação para muitas mães é o primeiro grande estresse, o primeiro grande foco do controle. Ao ponto de descartar a escolinha ótima, com melhor localização e preço acessível ao orçamento familiar, apenas pela politica de festas infantis, ou então chegar ao ponto de deixar a criança em casa em dia de celebração na escola. Existem casos e casos, claro, eu mesma mandava o pedacinho de bolo para minha filha poder sentar comer junto dos coleguinhas nas festinhas de aniversário. Depois do segundo filho nascer, me vi obrigada delegar esse controle, e então consegui ver como a boa educação e o bom exemplo são mesmo maravilhosos e dão seus frutos desde cedo. Posso estar numa festa com mil brigadeiros a disposição, com refrigerante e todas as coisas que se costumam ver nos aniversários, minha pequena simplesmente não se interessa, por muito água ou suco, ela gosta mesmo é de brincar e da hora do parabéns e faz questão de pegar um docinho, que nem sempre come.

Hoje meus dois filhos  estão curados de suas alergias alimentares, mesmo assim nossa alimentação continua cuidadosa. Não somos de comer nem comprar guloseimas com frequência, não tomamos refrigerante em casa e não compro para eles na rua. Mas confesso, de vez em quando rola vontade de um docinho final de tarde de domingo, e nos fazemos ou compramos e comemos. Brigadeiro, pipoca doce, o quê nos der vontade. Uma vontade que é rara, as vezes minha, as vezes do papai, as vezes de um dos pequenos. E qual é o mal? a obesidade, diabetes, hipertensão e outras doenças adquiridas não tem sua causa no consumo esporádico, mas no hábito, nessa costume de comer sempre doce, sempre salgado demais, comer sem horários regulares, em exagerar as porções. Mas como nosso cotidiano é bom, vejo que meus filhos mesmo sem mim, pedem de almoço “arroz, feijão, carninha e salada”, mesmo quando lhes é ofertado hambúrguer ou qualquer outra coisa. Fico bem mais tranquila, sei que estamos educando o paladar, e treinando a mente para o autocontrole, com a nossa rotina alimentar cotidiana, então podemos confiar, precisamos confiar!

A alimentação saudável é um comportamento que se aprende com a imitação, então temos que comer hoje como esperamos que nossos filhos comam amanhã. Nos não estaremos lá para vigiar quantos doces a criança comeu na festinha que foi sozinho, ou o que o adolescente coloca no prato na hora do almoço na escola. Mas podemos CONFIAR em nossa boa educação, no exemplo que damos, e que mesmo que a criança exagerar nas guloseimas uma vez, irá aprender, e em casa terá a oferta adequada.

Ensinar valores com o exemplo

Na medida que crescem a preocupação é outra, começamos policiar o que a criança  ouve, assiste e lê. Precisamos cair na real, É IMPOSSÍVEL ter controle absoluto do ambiente no qual nossos filhos irão crescer. Você pode ter escolhido o condomínio ou a rua onde mora com seus filhos a dedo, mas então chega o novo vizinho que adora escutar em bom e alto som os mais variados gêneros musicais desde o sertanejo romântico altamente sugestivo até o Funk mais atrevido. E como faz para seu filhinho não ouvir? vai encarar a briga com a vizinhança? e mesmo que consiga que o vizinho pare de ouvir tais musicas. Você conseguirá que seu filho nunca as ouça? No táxi, no ônibus, nas festinhas que for convidado?

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Estamos vivendo numa bolha de informação, se você é assíduo de redes sociais então já sabe bem o que é isso. Ver sempre os mesmos temas, o mesmo tipo de post no seu feed não é de graça.  Essas bolhas de informação acabaram criando bolhas de convivência, achamos que o mundo é esse mesmo, todos pensando e criando os filhos como nós, e então quando surge algo fora de nosso ideal, piramos!  Como é possível? alguém pensa diferente de mim? só pode ser coisa ruim!  Nos esquecemos que cada um de nós, cada família cria seu próprio sistema de valores morais, que ensinam às suas crianças não apenas com o controle do ambiente, mas principalmente com a VIVÊNCIA COTIDIANA.

Esta na moda problematizar, o que é muito bom, o objetivo dessa problematização é criar um exercício diário para olhar de forma crítica para o mundo que nos rodeia, vejam bem, olhar criticamente e não censurar o diferente. Discutimos sobre o livro da escola, se o clássico de literatura ou sua adaptação tem linguagem adequada para nossos filhos, se traz apologia ao racismo; discutimos sobre o filme ou desenho de moda, se é machista demais, feminista demais, ou se traz apropriação cultural; são tantos porém, que se entramos nessa onda de censura acabamos só assistindo ao teto, ouvindo som branco e nem a Bíblia iria ser poupada dessa espiral moralista.

Na minha opinião, esse moralismo é reflexo da insegurança que sentimos sobre a educação de valores para nossos filhos. Concordo que vivemos uma crises de valores morais, mas não acho que um livro, um filme ou um desenho seja capaz de influenciar mais a vida, crença e comportamento de meus filhos do que nossa convivência diária, do que o ensino de valores que nos, seus pais, lhes oferecemos dentro do lar. Então podemos assistir e curtir o filme, o livro, o desenho sem problema nenhum, porque eles tem nosso acompanhamento, se algo parece errado dentro de nosso sistema de valores é discutido, explicado até que entendam que não é sua realidade, sua realidade está aqui, na casa onde dividimos tarefas, onde cada um deve cuidar de seu espaço, onde mãe e pai trabalham, onde mãe e pai respeitam os outros e exigem esse mesmo respeito.

Criando filhos para o mundo real

Me preocupa sim, e muito, que a insegurança materna está chegando em níveis alarmantes, chocantes. De problematizar até o que é formação de cultura geral na escola, educação, limitar o atuar docente, limitar a criança de vivenciar o mundo por medo de não controlar a experiência. Precisamos focar no ensino de critério, autocontrole e valores para nossas crianças, e mais importante aprender a confiar nelas e em nós, na boa labor que estamos fazendo em quanto mães e pais, educadores de seres humanos, pode ser que as vezes cometemos erros, estes erros são oportunidades para aprendizados maiores. Querer controlar todos os ambientes da criança nos mínimos detalhes só nos traz frustração, é uma tarefa impossível. E vamos combinar também que um  mundo homogêneo seria chato demais, é na diversidade que está o sabor da vida!

Não podemos esquecer que a educação, ainda mais de valores , não se limita à escola, ela é responsabilidade do lar, da família, a escola apenas auxilia. Limitar leituras, filmes, evitar temas e discussões não soluciona o problema maior, o mundo é cruel mesmo, então precisamos preparar nossos filhos para encarar. Precisamos parar de jogar a responsabilidade nas costas de terceiros e começar agir, lhes proteger não com uma bolha o seu redor para lhes manter num aparente mundo perfeito, mas preparar suas cabecinhas, desde que começam questionar, quando se deparam com o diferente, vamos aceitar o desafio e conversar para explicar o mundo sem tabu, sempre que se apresentar algo fora de nosso círculo de valores e costumes, alimentando sua curiosidade, o desejo de questionar e a mentalidade crítica, reforçando e deixando claro os nossos valores morais enquanto família e seres humanos, dando um forte exemplo de comportamento em casa e mantendo os canais de comunicação e confiança sempre abertos.

Não podemos nos esquecer que estamos criando filhos para o mundo, o de hoje e o de amanhã, aquele imperfeito, não o ideal. Então precisamos preparar esses seres humanos para o que vier, ensinar autodisciplina, autocontrole e treinar suas mentes para o pensamento crítico, para que possam se virar bem sem nós. Para poder confiar que esses seres humanos continuaram a construir (ou ao menos tentar) um mundo melhor. Mas para isso precisamos começar por confiar na boa educação que estamos lhes dando.

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Texto original de Zioneth Garcia

 

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